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domingo, 22 de outubro de 2017

Pode um Jogador ser feliz se não Joga onde quer?

Treinador: Porque é que não abordaste o avançado e lhe cortaste a bola!? E tu guarda-redes!? Porque é que nem sequer tentaste defender!?
Jogadores: Porque não queremos jogar nessa posição…

Somos manifestamente apaixonados pelas histórias de resiliência, que ajudam o ser humano a ser melhor no seu Todo. Felizmente, no Futebol, são vários os casos de sucesso onde muitos craques para chegarem ao topo tiveram de ultrapassar diversas adversidades, umas até bem agressivas do ponto de vista emocional, mas que se mostraram profícuas para o seu crescimento.
No caso concreto exposto acima, numa equipa Sub13 de Futebol de 9, com treze jogadores no plantel, sendo que apenas um é guarda-redes, estamos a ter vários problemas na questão da “Posição” a ocupar em campo. “Não gosto de jogar lá” ou “não quero jogar ali” são expressões diárias do processo que têm atrapalhado bastante o rendimento do mesmo.
Até agora temos estado a ser intransigentes quanto às nossas ideias e decisões. Temos adoptado uma postura rígida, tomando decisões em conformidade com aquilo que achamos ser o melhor para a equipa, mesmo que para isso estejamos a tornar os jogadores infelizes.
Mas valerá a pena? Valerá a pena estarmos a “marcar” as crianças de uma forma tão negativa? Valerá a pena estarmos-lhes a gerar sentimentos negativos que atrapalham o seu processo de aprendizagem? Valerá a pena termos crianças tristes e frustradas na nossa equipa?
Sabendo que “as emoções, o pensamento e a aprendizagem estão todos ligados”, e estando a Emoção compreendida como uma “importante componente da aprendizagem” (Jensen, 2002:11), achamos que a resposta é NÃO!
António Damásio (1994) fala-nos dos Marcadores-Somáticos, que podem “ser entendidos como um processo inconsciente do organismo que aumenta a eficácia do processo de decisão, destacando para isso opções marcadas positivamente (por exemplo, que originariam um estado corporal de prazer) e eliminando outras (por exemplo que provocariam um estado corporal desagradável)” (Oliveira, 2008). “Os Marcadores-Somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários” (Damásio, 1994).
Nesse sentido o “treinador deve funcionar como catalisador positivo dos comportamentos desejados, associando-lhes emoções positivas e/ou marcadores somáticos positivos” (Guilherme Oliveira, 2004).
Por isso, por mais adversidades que estejamos a criar na aprendizagem dos jovens jogadores, tal poderá ultrapassar os limites do aceitável, transformando o meio de aprendizagem numa espécie de prisão depressiva, que poderá orientar estes jovens para extremos tão nefastos como o abandono da equipa.
Porque para haver uma equipa teremos de ter jogadores…

Bibliografia
DAMÁSIO, A. (1994). O Erro de Descartes. Emoção, razão e cérebro humano. Mem Martins. Publicações Europa-América.
GUILHERME OLIVEIRA, J. (2004). Conhecimento Específico em Futebol. Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do processo ensinoaprendizagem/treino do Jogo. Dissertação de Mestrado. FCDEF-UP. Porto.   
JENSEN, E. (2002); O cérebro, a bioquímica e as aprendizagens; Edições Asa; Porto.

OLIVEIRA, A. (2008). As Emoções como condição essencial na Aprendizagem de um “jogar”. Dissertação de Licenciatura. FADE-UP. Porto.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na procura do Talento eu quero ser um Experto – a complexidade do Recrutamento!

Quando um clube é considerado bom na formação, um ponto que se exige que esteja presente nessa qualidade é o recrutamento de jovens jogadores. Principalmente quando a perspectiva resultadista está bem assente, e o clube tem algumas condições financeiras para oferecer condições a jogadores de "fora", o recrutamento é uma premissa diária na estrutura da formação. A maioria dos clubes utiliza e precisa desse trinómio deteção, seleção e recrutamento de talentos, pois até os melhores treinadores precisam de boas uvas para fazerem bons vinhos.

Esse mesmo aproveitamento dos melhores, deverá surgir nos escalões jovens, para melhor potenciar todo o processo de formação de determinado clube, onde o chamado “Departamento de Scouting” tem o seu papel fundamental (Moita, 2008). Hoje em dia, o recrutamento e toda a sua envolvência, chegou a um ponto bastante precoce, onde a prospecção chega a idades tão precoces como absurdas!

Assim como os jogadores começam a chegar às academias, escolas e clubes de futebol com idades bastante reduzidas, chegando algumas crianças a essas instituições com apenas 3 anos de idade (!) (http://www.portoccd.org/293), também o recrutamento se dá em crianças com idades a partir dos 7 anos.

Além disso, o recrutamento chegou a um ponto tão detalhado que não basta à criança e ao jovem ser bom, é preciso que ela, através do seu jogar, manifeste determinadas características assentes em determinado “modelo/perfil de jogador”. Uma das “Escolas de Futebol” mais prestigiada em todo o mundo, o Ajax de Amsterdão utiliza o modelo apelidado de TIPS, siglas que em inglês significam a (T) técnica, discernimento (o I é de “insight” que não tem tradução à letra), (P) personalidade e (S de speed) velocidade. Já outras equipas da Premier League utilizam outros modelos como o TABS ou o SUPS (Moita, 2008). Coincidência ou não, estes três modelos têm quatro iniciais, ou seja quatro referências de atributos de qualidade que o bom jogador deverá ter, tal como acontece na caracterização dos expertos, que deverão apresentar o domínio de quatro Domínios. Assim, os modelos apelam normalmente a qualidades ligadas ao domínio técnico, cognitivo, emocional e fisiológico.

Relativamente à questão do “modelo/perfil do jogador” numa equipa de formação, concordamos que o mesmo deva existir mas de uma forma bem flexível. No entanto, mesmo que este esteja subjacente a um referencial ou a um padrão qualitativo, tal como por exemplo o do Ajax, o “modelo/perfil de jogador” deverá ser, sobretudo, flexível e deverá potenciar a adaptabilidade do jogador de formação a diferentes filosofias ou modelos de jogo. Concordamos por isso com o Jean Paul (in Moita, 2008), na altura diretor técnico da formação do Sporting, quando afirma que “o que faz sentido é que nós sejamos capazes de formar jogadores aptos para se adaptarem a qualquer modelo de jogo ou sistema”. Para isso acontecer caberá ao jogador ser inteligente e autónomo para colocar em prática essa adaptabilidade.

O Scout, ou “olheiro”, de um determinado clube e neste caso de jogadores da formação, deverá então conseguir detetar crianças e jovens que se enquadrem nas linhas orientadoras do “modelo/perfil de jogador”, linhas essas que deverão ser flexíveis como já foi abordado acima. A partir daí deverá projetar a evolução dos domínios do expertise, olhando para o jogador como um ser treinável. A nosso ver, a competência do Scout de jogadores jovens está dependente de um número elevadíssimo de factores, muitos deles dependentes de terceiros, pelo que o verdadeiro valor do Scout jovem só pode ser mensurável anos após o início da sua atividade, quando atletas propostos por ele conseguem alcançar patamares qualitativos de excelência.

Assim, concordamos com algumas das competências propostas por Proença (1982), que definem um bom desempenho de função de Scout, como a imparcialidade, o conhecimento do jogo, a mente aberta, o perfecionismo e o conhecimento dos jogadores da própria equipa (para comparações) (Santos, 2012). Acrescentamos ainda o fator “sensibilidade”, de interpretação de comportamentos positivos ou negativos em determinado contexto, e o fator “conhecimento maturacional do indivíduo” relacionado com conhecimento sobre o processo de maturação biológica do indivíduo.

Moita, M. (2008). Um percurso de sucesso na formação de jovens de Futebol. Estudo realizado no Sporting Clube de Portugal – Academia Sporting/Puma. Monografia não publicada, Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Porto.

Proença, J. (1982). A observação e a intervenção do professor. Ludens, 7, 33-44.


Santos, P. (2012). O modus operandi de um Departamento de Scouting de Futebol – Estágio Profissionalizante realizado na Futebol Clube do Porto – Futebol, SA. Relatório de Estágio Profissionalizante, Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Porto.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Porque é que um fenómeno tão global como o Futebol, a prática tem de ser tão específica?


Porque é que um fenómeno tão global como o Futebol, a prática tem de ser tão específica?

Os grandes desportistas, neste caso, os grandes jogadores de futebol, são sobejamente conhecidos, analisados e estudados. Todos sabemos quais são os pontos fortes e fracos dos melhores jogadores do mundo, sendo natural que ocorra neste momento uma mudança de paradigma quanto ao estudo desses jogadores. Mais do que saber como é que os jogadores de top “são tão bons”, pretende-se hoje em dia saber “como é que se tornaram tão bons” (Costa, 2005).

Uma das teorias que se tem debruçado mais sobre o caminho que os expertos percorrem para chegarem aos níveis de rendimento superior, e que é bastante aceite pela comunidade científica, é a Teoria da Prática Deliberada, proposta por Ericsson, Krampe & Tesch-Romer (1993).

A Teoria da Prática Deliberada poderá sucintamente ser explicada pela realização de “actividades designadas, normalmente, pelos professores / treinadores com o único propósito de melhorar o desempenho do indivíduo” (Costa, 2005), onde exercícios são inventados e os atletas minuciosamente monitorizados para que possam ultrapassar as suas fraquezas (Moita, 2008).

Estando o Desporto mais ligado à corrente Ambientalista da formação dos expertos, a Teoria da Prática Deliberada tenta explicar, através dos seus princípios, essa mesma formação. Falamos na corrente ambientalista, já que a prática e o treino, mesmo que não sustentadas por qualquer teoria são necessários à concretização do experto no Desporto. Contudo, a prática por si só, pode não ser condição para se ser talento, pois este ponto gera ainda bastante controvérsia (Costa, 2005).

A Teoria da Prática Deliberada aborda como princípios principais:
· a necessidade do prática ser baseada em permanente esforço e concentração, sem que o prazer esteja necessariamente presente no processo;
· a regra ou lei dos 10 anos ou das 10 000 horas;
· a procura de um processo não só quantitativo mas também qualitativo.

O princípio que se refere ao esforço e à concentração, sem, muitas vezes, prazer, aborda a prática de uma forma permanente, altamente estruturada, onde o objetivo principal é essencialmente a melhoria do desempenho e não o divertimento. Essa noção de sacrifício, é defendida para a potenciação e evolução qualitativa do jogador.

Para esta teoria, o praticar como brincadeira, não leva a que o atleta alcance os níveis desejados de expertise. Da mesma forma que a alta intensidade é exigida ao jogador, também, o repouso e o descanso são necessários à otimização das melhorias biológicas e fisiológicas do jogador. As boas prestações em treino parecem estar relacionadas com níveis altos de concentração daí a inclusão também deste elemento. Contudo, este princípio tem sido contestado nos jogos desportivos coletivos, já que os jogadores têm expressado bastante agradabilidade na realização dos exercícios com maior exigência ao nível do esforço e da concentração. (Costa, 2005) Quanto ao princípio dos 10 anos ou das 10 000 horas está bastante provado nos JDC. Se olharmos para os melhores jogadores do mundo das diferentes modalidades dos jogos desportivos coletivos, vemos que eles precisam de percorrer um longo caminho, as tais 10000hs ou os tais 10 anos, para chegar a um ponto ótimo de rendimento para que eles sejam considerados expertos. A Teoria da Prática Deliberada, vai ainda mais longe no campo da biologia ao referir que, com exceção da altura, todas as diferenças físicas poderão ser explicadas pela prática longa e estruturada em determinado domínio específico. Esta corrente diz-nos ainda que não há provas científicas na área da genética que provem que o gene X predisponha o jogador a ser experto na modalidade X, daí o alto valor da prática (Costa, 2005).

Finalmente, abordando o princípio da qualidade do processo da prática, este é importante quanto à procura da otimização da aprendizagem dos diversos domínios do expertise. Um processo quantitativamente demorado mas que não seja devidamente estruturado nem exija ao jogador o empenhamento devido pode não ser suficiente para o indivíduo atingir o expertise. Daí que cabe ao treinador/monitor, através de uma alternância progressiva de níveis de esforço e concentração, criar condições para que o jogador maximize as adaptações biológicas, cognitivas, emocionais e técnicas, necessárias à sua condição de experto. (Costa, 2005)

Então mas que treino e que treinador?
O Treinador tem um papel crucial no processo de formação do jogador. Desde a sua personalidade, aos seus feedbacks, à sua interação e relação com os jogadores, até à própria operacionalização dos treinos, tudo influencia positiva ou negativamente o percurso de aprendizagem do jogador.

No futebol, são vários os relatos que confirmam esta ideia, mas também o são os casos de sucesso dos jogadores que durante muitos anos jogaram “apenas” na rua, sem frequentarem nenhum tipo de escola, clube ou academia de futebol. Curiosamente, ou não, no chamado “futebol de rua”, o jogador não tem qualquer tido de orientação externa, não possui uma voz ativa e de comando que dirija o processo de aprendizagem. É por isso que acreditamos que um bom treino seja mais importante que um bom treinador.

Contudo, julgamos também que um bom treinador, contribui mais do que atrapalha na formação de um jogador. O problema talvez surja pelo facto de muitos dos treinadores, principalmente dos escalões mais precoces, não saberem lidar com as especificidades e o contexto inerentes às crianças, aplicando métodos, objetivos e exigências, completamente desproporcionais a ela.

Já em relação ao treino, mais do que a quantidade (também importante) parece ser a qualidade aquela que mais contribui para diferenciar um experto e um não experto. Desde logo deverá ser um processo com atividades específicas que contribuam para a aquisição da expertise. Este continua a ser um ponto ainda muito núbio e muito discutido, já que alberga em si um elevado grau de subjetividade sobre o que é específico ou não. Na nossa opinião, um treino específico no futebol de formação, deverá ser aquele que se foque na assimilação de padrões qualitativos elevados no desempenho integrado dos quatro domínios (técnico, emocional, cognitivo, fisiológico), tendo em conta dois elementos essenciais que são: o enquadramento do futebol nos JDC e o facto de se jogar com os pés.

Assim, o treino deverá potenciar o Domínio:

Técnico – através da promoção da adaptabilidade do trem inferior do corpo, a uma funcionalidade que ele não está “programado”, o Futebol. Os pés e as pernas, são basicamente estruturas de suporte do corpo, a evolução da espécie a isso o levou, pedindo o futebol coisas aos pés, que essa mesma evolução, diz para pedirmos às mãos. É por isso necessário, que o ensino potencie ao máximo esta “nova” função que o futebol exige ao corpo, neste caso, aos pés e às pernas. Tal como as pessoas que nascem sem braços conseguem pentear-se, conduzir, cozinhar, pintar, tocar instrumentos, através de uma prática intensa, continuada e precoce nessas ações, também o treino no futebol, precoce e devidamente montado, poderá oferecer ao jogador uma forte capacidade técnica de relação com bola, nos seus diferentes elementos: drible, receção, passe, remate, condução rápida, mudança de direção, finta... é por isso possível estimular o trem inferior na sua componente motora e sensitiva, atribuindo em treino essas novas funcionalidades. (Maciel, 2008) Claro está que as mesmas só fazem sentido se “transferidas” para o jogo, pois os malabarismos pertencem aos circos.

Cognitivo – tendo o treinador a consciência do elevado grau de complexidade que o jogo de futebol confere por ser jogado em constante oposição/cooperação. Essa dualidade deverá ser maximamente explorada, sempre que possível, no treino, favorecendo qualidades como a “leitura” de jogo, a capacidade decisional, a antecipação e a concentração.

Emocional – através de contextos minimamente prazerosos ao jogador, que o façam sentir gosto pela modalidade que pratica, mesmo que esse gosto seja alcançando através de muito esforço e concentração. Estando provado o efeito que a emoção cria na aprendizagem, o treino deverá saber oferecer esse “rebuçado”, de recompensa, mesmo que indireta, pelo esforço da criança e do jovem. Além disso, o sacrifício, a adversidade, a injustiça, sempre que utilizados de uma forma pedagógica poderão ajudar o jogador a tornar-se mentalmente, mas sobretudo “comportamentalmente” mais forte.

Fisiológico – através do conhecimento dos efeitos fisiológicos das diferentes componentes da “carga” de treino (volume, intensidade, duração, frequência, densidade), assim como o devido conhecimento das janelas sensíveis de treinabilidade. Estas janelas estão relacionadas com períodos etários na maturação do indivíduo que permitem uma melhor assimilação e desenvolvimento das capacidades motoras. Nem todas as capacidades motoras coordenativas ou condicionantes, se desenvolvem na mesma altura, sendo por isso necessário ao treinador/professor/monitor estimular a criança ou jovem segundo esse princípio (Neves, 2010).

Referências Bibliográficas

Costa, R. (2005). “O caminho para a expertise” A Prática Deliberada como catalisador do processo de formação dos expertos em futebol. Monografia não publicada, Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Porto.

Ericsson, K.; Krampe, R. & Tesch-Romer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, 100, 363-406.

Maciel, J. (2008). A (In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL – Futebol um Fenómeno AntropoSocialTotal, que “primeiro se estranha e depois se entranha” e... logo, logo, ganha-se!

Moita, M. (2008). Um percurso de sucesso na formação de jovens de Futebol. Estudo realizado no Sporting Clube de Portugal – Academia Sporting/Puma. Monografia não publicada, Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Porto.


Neves, J. (2010). Caracterização multidimensional de jogadores de futebol com 13-14 anos - Estudo com equipas da Associação de Futebol de Coimbra. Dissertação não publicada, Faculdade de Ciências do Desporto e da Educação Física da Universidade de Coimbra, Coimbra.

domingo, 3 de julho de 2016

Os 23 de Fernando Santos desde o seu início - análise à formação desportiva de Portugal no Euro'2016

Quisemos saber mais sobre a história desportiva dos 23 escolhidos de Fernando Santos. Fomos tentar conhecer de onde vieram e por onde passaram os jogadores que representam a selecção nacional portuguesa, desde o seu primeiro ano de competição formal até ao final (?) do seu processo de formação - o último ano de juniores.

Desde logo é importante referir que dos 23 jogadores convocados, 8 nasceram fora de Portugal e que por isso, poderão ter tido o seu primeiro contacto com o Jogo, ainda em solo estrangeiro.

Para além dos casos de Anthony Lopes e de Raphael Guerreiro que nunca representaram qualquer clube português, todos os dados dos outros jogadores foram recolhidos no portal da Federação Portuguesa de Futebol.

Para estes dois jogadores acima destacados conseguimos apurar (wikipedia.com e transfermarkt.com) que Anthony Lopes é um “produto” da academia do Lyon, encontrando-se o guarda-redes no clube desde os Sub9; enquanto que Raphael Guerreiro tem um historial mais diversificado, tendo representado até aos Sub19: o  Blanc-Mesnil SF (1999-2005), o INF Clairefontaine (2005–2008) e o SM Caen (2008–2013).

Também Pepe fez grande parte da sua carreira jovem fora de Portugal, no Brasil, ao serviço do Corinthians Alagoano, chegando a terras lusas e ao Marítimo apenas na sua época de Sub19.

A pesquisa efectuada está então representada no seguinte quadro:


Antes de prosseguirmos a reflectir sobre o que o quadro nos mostra, importa clarificar que outro luso-francês, neste caso o Adrien Silva, começou a sua formação aos 5 anos na “escolinha” do FC Girondins de Bordeuax onde esteve até vir para Portugal e para o ARC Paçô.

Já no caso dos outros jogadores que nasceram fora de Portugal, a competição formal poderá ter nascido no nosso país. Também filho de emigrantes, Cédric Soares tem uma história desportiva mais linear, já que a sua família voltou para Portugal quando ele apenas tinha dois anos, não havendo, obviamente registos antes do seu ingresso no Sporting. 

Passando agora para os luso-africanos, as primeiras vivências futebolísticas deles parecem ser bastante semelhantes. William Carvalho (Angola), Éder e Danilo Pereira (Guiné-Bissau) vieram para Portugal ainda em criança tendo começado a jogar em clubes de menor dimensão ainda em tenra idade – no caso de Éder foi um pouco mais tarde.

Focando a nossa análise nos 20 que passaram maior parte da formação em Portugal começamos por dissecar aquilo que foram os seus primeiros contactos com o processo de formação formal, nomeadamente à “Idade de Ouro da Aprendizagem” – 6-12 anos propostos por Pacheco (2001) – ou seja, até ao escalão Sub13.

Iniciamos a nossa análise pelo princípio, isto é, pelo seu “birthplace futebolístico” – aqui entendido onde os jogadores passaram maior parte da sua iniciação futebolística – verificamos que quase metade dos jogadores iniciou a sua prática em clubes da AF Lisboa. Os valores aumentam quando ainda falamos dos Sub13 quando já mais de metade está a jogar nos campeonatos regionais da capital portuguesa.

É também importante destacar que alguns dos jogadores apenas começaram a competir formalmente no escalão de infantis. Contudo, acreditamos que não tenham começado a jogar futebol apenas nesta idade, mas que tivessem iniciado e desenvolvido a sua prática noutro contexto competitivo que não o do clube, ou seja, na rua.

Outra constatação é que nestas idades, em especial até ao escalão de Sub11, os clubes de referência de formação em Portugal – leia-se 3 grandes – ainda não têm uma grande representatividade. Até aos Sub11, apenas o FC Porto, consegue repetir dois jogadores (curiosamente, ambos acabam a formação nos clubes rivais – Benfica (André Gomes) e Sporting (João Mário)).

Já quando “subimos” para os Sub13, já todos os jogadores estão a competir em determinada equipa. É neste escalão que existe uma maior diversidade de clubes e proveniências, de Trás-os-Montes ao Algarve, passando pelas ilhas, os cracks vêm de todo o lado, por mais estranho que possa parecer numa perspectiva cada vez mais centralizada.
Neste capítulo importa aqui destacar o Sporting CP. Ao observarmos o quadro, verificamos que são 15 os clubes que estão representados neste escalão etário mas apenas o Sporting consegue “ter” mais do que um jogador. E logo seis! Ainda nesta referência, é pertinente vermos que estes seis jogadores desempenham diferentes posições no campo, contrariando a ideia muitas vezes em voga de que o Sporting CP apenas forma “extremos”: guarda-redes (Rui Patrício), defesas (Cédric e José Fonte), médio (João Mário), avançados (Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma). 

A partir do escalão Sub14 começa a diminuir a diversidade de clubes representados no quadro. A partir do escalão de iniciados os jogadores começam progressivamente a concentrar-se em determinadas equipas, com enfâse especiais nos três grandes. Com estes dados, podemos inferir que os jogadores de top nacional começam a ser recrutados a partir deste escalão, indo de encontro a alguns estudos que definem este grupo etário como o ideal para começar a recrutar.

Avançando para o último ano de júnior, o escalão Sub19, a diversidade de clubes é a mais reduzida. Para além dos “três grandes”, apenas Belenenses, SC Braga, Feirense e Adémia viram jogadores seus estarem presentes no Euro’2016. De todos, não podíamos deixar escapar o jogador que ainda com 19 anos representava o “ilustre desconhecido” ADC Adémia e hoje leva já 28 internacionalizações. Falamos de Éder, jogador mais contestado de todas as escolhas de Fernando Santos mas que é também aquele que tem a “escola” (teoricamente) mais fraca. Embora acreditemos que o jogador poderá apresentar algumas limitações no seu jogar, não deixa de ser também criticável que tantos clubes de referência a nível da formação continuem sem conseguir desenvolver talentos para a frente de ataque portuguesa. Se os “falhanços táctico-técnicos” de Éder são condenáveis, porque não condenar também os “falhanços de formação” dos melhores clubes portugueses, no que a esta posição diz respeito?

Ainda sobre este escalão, mais uma nota de destaque para o Sporting CP. São dez os jogadores que nos Sub19 jogavam (alguns ainda jogam) no Sporting. Como se não bastasse, das 183 épocas que os jogadores passaram no seu período competitivo formativo, mais de um terço foi com o lema dos “leões” ao peito. Compreende-se assim o porquê do Sporting ser considerada (e os dados do quadro comprovam isso) uma das melhores escolas de formação do Mundo…

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Jogador Talentoso e Jogador Experto: o que são? São o mesmo ou não são?

Quando nos reparamos com determinado jogador nos Jogos Desportivos Colectivos que apresenta qualidade e eficácia nas suas acções e comportamentos, tendemos logo a caracterizá-lo como talentoso ou experto. Por isso, não é qualquer jogador que é considerado dessa forma, estará sempre sujeito a algumas subjectividades de avaliação por parte de quem o julga. 

Infelizmente, ao longo da pesquisa efectuada não foi possível encontrarmos uma resposta conclusiva para ambas as perguntas. Desde logo pelo facto de as próprias definições de Talento e de Experto se coincidirem em muitos pontos. Por outro lado, o facto de existirem diferentes perspectivas quanto à formação dos jogadores talentosos e expertos nos JDC, provam a incerteza que ainda abunda nesta problemática, estando a perspectiva genética num dos extremos, a ambientalista no outro e a perspectiva de interacção entre o inato e o ambiental, no meio delas. (Costa, 2005).   

Abordando o conceito de Experto, vários investigadores, com especial incidência para os estudos de Janelle e Hillman, 2003, in Ericsson & Starkes, 2003, se debruçaram sobre o assunto e concluíram que existem características que são transversais a todos eles. Normalmente designados por “Domínios”, os expertos dominam a área “Cognitiva”, “Técnica”, “Emocional” e “Fisiológica”. De notar que esses domínios estão obviamente interligados uns com os outros e para se manifestarem precisam-se mutuamente. Além disso, esta corrente defende ainda a ligação muito estrita entre o Expertise e a prática, indo de encontro à ideia de que o Expertise é alcançável através de um processo de prática e aquisição que permita a aprendizagem e o desenvolvimento dos diferentes domínios (Costa, 2005).

Domínio Técnico - todo o jogador experto tem de dominar os mais variados recursos técnicos que lhe permitam ser funcionalmente eficaz nas suas acções e comportamentos em jogo, apresentando por isso um elevado grau de coordenação sensoriomotora (Dias, 2005).
O experto tem de dominar os seus recursos técnicos de uma forma contextualizada com o próprio jogo. Ou seja, para ser considerado tecnicamente experto nos JDC, o jogador não tem necessariamente de saber fazer muitos truques com a bola, do género dos malabaristas circenses ou dos “freestylers”. Tem é de saber resolver tecnicamente os vários problemas que vão surgindo ao longo do jogo, acolhendo em si um vasto leque de recursos que lhe permitam ultrapassar esses mesmos obstáculos.  
Esse mesmo domínio técnico é potenciado através da influência do treino. Pode-se afirmar que “o treino prolongado e sistemático promove o reconhecimento, a recordação e a retenção de modelos de movimentos coordenados, refinados e eficientes” (Janelle e Hillman, 2003). O treino permite aos expertos construir um conhecimento técnico-específico sobre o jogo. Esse conhecimento ajuda-os a realizarem as suas acções eficazmente de uma forma automática, que os jogadores não-expertos não conseguem. 
Domínio Cognitivo – todo o jogador experto terá de saber analisar e interpretar o jogo, percebendo quais as soluções mais adequadas para resolver os diferentes problemas que surgem. É através da especialidade neste Domínio que o jogador determina a melhor estratégia a utilizar na circunstância do jogo (Dias, 2005). 
São várias as capacidades que incorporam este domínio, como a tomada de decisão, a memória, a percepção e a antecipação, sendo por isso considerado o Domínio mais complexo nos JDC (Dias, 2005).
O Domínio Cognitivo alberga em si dois tipos de conhecimento específico: o declarativo, relacionado com “o que fazer”; e o conhecimento processual relacionado com o “como executar” (Dias, 2005). 
Segundo French & Thomas (1987) e McPherson & Thomas (1989, in Guilherme Oliveira, 2004: 63)  os expertos têm assim a capacidade de:
1. Reconhecer padrões de jogo com maior rapidez e precisão.
2. Detectar e localizar os aspectos mais relevantes que acontecem no seu campo visual, com maior rapidez e precisão.
3. Antecipar as acções dos adversários, baseando-se em pistas visuais, mais eficazmente.
4. Revelam um conhecimento superior em situações mais prováveis de acontecer.
5. As suas decisões tácticas são mais ajustadas à situação.
6. Têm um conhecimento declarativo (matérias específicas) e um conhecimento processual (acções) mais estruturado e aprofundado.
7. Possuem capacidades superiores de auto controlo.
Também ao nível da memória os expertos parecem estar mais evoluídos, já apresentam um nível mais completo e diferenciado, que lhes permite recuperar a informação de uma forma mais rápida e eficiente. 
Domínio Emocional – o experto, através da gestão emocional, tem a capacidade de seleccionar e direccionar a informação do jogo associando-a mesmo a estados positivos ou negativos.
Segundo Janelle & Hillman (2003) o domínio emocional está dividido em duas áreas: a regulação emocional (habilidade para influenciar e exercer algum controlo sobre a emoção) e as perícias psicológicas (factores que podem influenciar a prontidão emocional).
Segundo Filipa Dias (2005), a Emoção nos expertos atua e influencia positivamente ainda sobre: 
·         Aprendizagens e respectivos conhecimentos;
·         Memórias;
·         Tomada de decisão;
·         Concentração. 
Domínio Fisiológico – todos os jogadores só alcançam o expertise se fisiologicamente conseguirem responder às exigências top de determinado JDC. Contudo, o meio de alcance do expertise fisiológico suscita alguma discussão na comunidade científica.
Enquanto alguns investigadores como Wilmore & Costill (1991, in Janelle & Hillman, 2003) que, com excepção da altura do indivíduo, acreditam que factores morfológicos e tipos de fibras musculares podem sofrer alterações através de uma prática extensa e sistemática; outros fisiologistas do desporto defendem que os limites impostos ao jogador são geneticamente determinados.
Para muitos fisiologistas do desporto, existe então a ideia que um atleta estará pré-determinado a alcançar o top, já que terá condições fisiológicas para lá chegar. Para outros investigadores, o treino volta a ter um papel fundamental na melhoria das suas capacidades fisiológicas, dando importância à quantidade e qualidade do treino a que o jogador é sujeito.
Além disso, este domínio de expertise é quase exclusivo do desporto, já que noutras modalidades não tem qualquer relevância (Costa, 2005). 

Analisando agora o conceito de Talento que encontramos na literatura, vemos alguns pontos divergentes quanto à comparação com o conceito de experto, mas sobretudo vemos muitos pontos comuns com este.
Se no caso do Experto, o treino e a prática parecem ser os principais meios de alcance do expertise, no caso do Talento, o dom inato e a aptidão natural parecem influenciar bastante a definição deste conceito. 
Mesmo com esse “extra” genético e biológico, os indivíduos talentosos são predispostos a serem talentos mas não deixam de necessitar de estimular o seu talento para serem na realidade Talentos. Parece confuso, mas, como diz Garganta (2006) “antes de se submeter a um processo de treino, pode existir um talento, mas o jogador só existe depois disso”. É necessário existir, por isso, um processo de aprendizagem que permita ao talento-potencial ou talento-virtual ser talento-real.
O conceito de talento está assim mais ligado à perspectiva genética, nunca descurando o lado prático e treinável de si próprio. Como poderemos ver nesta abordagem de Garganta, os pressupostos que definem talento enquanto jogador de futebol são também eles balizados por quatro elementos, parecidos aos quatro domínios caracterizadores dos expertos:

• Habilidade técnica em velocidade; • Disponibilidade táctica • Eficiência orgânica e muscular: agilidade, velocidade, reacção rápida, rápidas mudanças de sentido e direcção; • Valor moral elevado: autocontrolo, coragem, autoconfiança, combatividade, carácter.

Dá-se ainda a devida importância onde o talento está a ser julgado. Ou seja, o talento estará sempre dependente da sua contextualização, levando-me mais uma vez a pensar na questão da subjectividade da avaliação de talento (tal como abordei no conceito de experto). O talento tem por isso de o ser de uma forma superior e demarcativa dos outros indivíduos (Moita, 2008). 

Tal como nem todos os grandes jogadores de elite são morfologicamente iguais, também nem todos os jogadores expertos apresentam o mesmo domínio dos Domínios, nem todo o talento o é em níveis diferentes de exigência e de competitividade. Assim, e muitas vezes condicionados pela sua funcionalidade no jogo, os expertos evidenciam diferentes níveis de qualidade cognitiva, técnica, emocional e fisiológica, tal como os talentos se mostram mais ou menos talentos conforme as exigências que lhes são impingidas (Dias, 2005).


É inclusive aceite, que mesmo quando um jogador apresente debilidades em determinado domínio de expertise ele não deixe de ser considerado experto ou talentoso, desde que à sua maneira tenha algo de diferente, especial, e de preferência qualitativamente superior que deva acrescentar ao jogo (Dias, 2005).

terça-feira, 3 de maio de 2016

Apontamentos do III Congresso de Futebol da UTAD

No passado dia 11 de Abril teve lugar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro o 3º Congresso de Futebol. O evento, organizado pelo Núcleo de Estudantes de Desporto da UTAD, contou com a participação de vários intervenientes, das mais diversas áreas específicas do Futebol.

Foram palestrantes Alexandre Monteiro (Coaching Desportivo); Rui Tomé, Bruno Freitas, Tiago Fernandes e Gilberto Freitas (Formação de Elite); António Oliveira (O Treinador e os Diferentes Contextos); Rui Lança (O Treinador e a Equipa – Liderança); Vítor Maçãs (Organização Ofensiva – Prático); Francisco Neto (Desenvolvimento do Futebol Feminino); Daúto Faquirá, Vítor Oliveira e Luís Castro (Estruturação e Preparação de uma Equipa); Carlos Soares (O Calendário Desportivo como Meio de Melhoria da Modalidade); André Ribeiro, Rui Malheiro e Ricardo Damas (Scouting – Equipas/Jogadores O que Ver/Como Aplicar); e Bruno Gonçalves (Apresentação dos Resultados Obtidos por GPS).     

Coaching Desportivo - Alexandre Monteiro

Por motivos superiores não nos foi possível chegarmos a tempo de assistir na totalidade à apresentação deste primeiro palestrante.
Contudo, pelo que nos foi possível aperceber, Alexandre Monteiro abordou, sobretudo, a utilização da Linguagem Corporal no modo de actuação do Treinador. Essa é mesmo a sua área de especialização tendo sidos apresentados alguns detalhes comportamentais que ajudam os treinadores a serem mais fortes no seu processo comunicacional e motivacional.

Formação de Elite (Mesa Redonda) – Rui Tomé, Bruno Freitas, Tiago Fernandes e Gilberto Freitas

Com esta Mesa Redonda podemos ficar a conhecer mais e melhor o processo de operacionalização de quatro equipas de Top nacional. Rui Tomé a representar a equipa Sub19 do SC Braga, Bruno Freitas a abordar as suas ideias dos Sub13 do SL Benfica, Tiago Fernandes a dar o seu exemplo dos Sub19 do Sporting CP e Gilberto Freitas a expor o seu trabalho dos Sub15 do Vitória SC.
Tentámos “beber” o máximo de informação de cada um dos intervenientes pelo que tentaremos apresentar aquilo que cada um foi dizendo acerca da sua postura perante o processo de formação assim como a do clube que representam.

Rui Tomé (SC Braga):
·         Existe uma intervenção sobre o lado humano com cuidados especiais para os que não chegam ao top.
·         Embora muitas vezes se confunda, é muito importante distinguir Competitividade de Competição. Podem parecer sinónimos mas estão relacionados com posturas sobre o processo bastante diferentes. No clube, pretende-se criar altos padrões de competitividade, que promovam um desenvolvimento saudável na relação entre a Aprendizagem e o Resultado; já a competição é encarada, maior parte das vezes, como um elemento nocivo ao processo de aprendizagem dos jogadores, corroendo-os e aos seus encarregados de educação.
·         Fará sentido criar a mesma estrutura posicional para todas as equipas da formação? Pode-se ter a propensão de Jogar com os mesmos princípios manifestando diferentes “formas” (leia-se estruturas).
·         Julian Draxler (habilidoso extremo alemão de 22 anos) jogou uma época durante os escalões de formação na posição “6” para sentir e aprender a interpretar o que o jogador dessa posição “sofre” quando o extremo perde a bola. São diferentes estratégias para tentar desenvolver o jogador.
·         Um outro exemplo é o de Diogo Capel, outrora apontado como um dos jogadores com mais potencial do mundo. Com o intuito de valorizar a diversidade de posições/funções em campo, não seria interessante o espanhol ter experimentado jogar em posições mais interiores dadas as diferenças das dinâmicas e constrangimentos espácio-temporais?
·         No Braga, foi contratado o João Tomás para trabalhar de forma mais eficiente os Pontas de Lança, normalmente com um treino semanal. Com isso, não se faz um treino analítico mas um treino orientado para o detalhe específico da posição. Acredita-se que é possível criar um PL, ficando o trabalho facilitado se existirem bons modelos sociais de PL, o que, neste momento, não é o caso do Éder.
·         Sobre o processo comunicacional e o tipo de feedbacks utilizado no treino, tenta-se que os constrangimentos do exercício não sejam demasiadamente difíceis e que os feedbacks sejam orientados para a dimensão emocional reforçando-se positivamente o jogador.
          
Bruno Freitas (SL Benfica):
·         No clube, tenta-se ajudar os pais a gerir as expectativas dos filhos (para além das expectativas criadas pelos próprios jovens jogadores), “ensinando” os pais a lidar com o fracasso. Daí, haver também um acompanhamento muito forte nas áreas da formação académica e social do indivíduo. Pretende-se mostrar a diferença de processos entre a Formação e a Alta Competição.
·         Salvo muito raras excepções, o “individual” não se promove sem um bom “colectivo”. Quando o colectivo rende, o individual tem tudo para emergir e evoluir.
·         Os conceitos de Especialização e de Diversificação são conceitos confusos e que muitas vezes são mal interpretados e/ou utilizados, não tendo necessariamente a ver com posições em campo mas antes com liberdades e funções a desempenhar pelo jogador.
·         Quando é que a criança joga futebol, hoje em dia? Pelas condições socioculturais actuais, a criança não joga na rua nem na escola, e cada vez menos ela joga no clube, fruto da metodologia de treino adoptada por determinados clubes e/ou treinadores! É fulcral mudar este paradigma!
·         Fazemos “mea culpa” no processo de formação ao não reconhecermos a lacuna que existe na qualidade demonstrada pelos Pontas de Lanças. As limitações são evidentes. Ao mesmo tempo, todos temos de reflectir quando tentamos responder à seguinte pergunta: o que é mais valorizado, “encostar” de bico para a baliza e fazer o golo ou fintar o guarda-redes com uma finta habilidosa e falhar?
·         Orientação dos constrangimentos dos exercícios para o desenvolvimento de um Jogar. Utilização da dimensão competitiva como punição da derrota – p. e. quem perde arruma o material. Ainda sobre o feedback, deixa-se errar algumas vezes para que eles tentem interpretar o erro, e só quando este se torna sistemático é que se interfere.
·         A multidisciplinaridade desportiva pode ser favorável ao crescimento das competências motoras, mas também existem exemplos de quem chegou muito longe a top sem ter experimentado diferentes modalidades desportivas.

Tiago Fernandes (Sporting CP):
·         A prioridade do processo é o desenvolvimento do jogador. Colá-lo na equipa A e/ou na B. É desejo do clube formar o máximo de jogadores que sejam competentes para jogar nas equipas profissionais. Nesse sentido, existe um foco muito grande dirigido ao grupo de jogadores de elite.
·         O colectivo forte é um contexto mais estimulante e profícuo para o desenvolvimento do jogador. Com essa preocupação, quando se está a gerir um talento, o maior erro que se pode cometer é dando-lhe “palmadinhas nas costas” e dizendo-lhe que é um crack (ou seja, tirando-o da noção colectiva da Aprendizagem).
·         O Cédric (antigo jogador do Sporting) foi médio durante todo o seu processo de formação. Tentar gerir a sua cabeça e a do seu encarregado de educação foi o mais difícil para tentar fazer ver a ambos que o seu futuro profissional era facilitado com a sua passagem para defesa-direito. 
·         No clube, dá-se imensa importância à mentalidade de um jogador de formação para se adaptar à adversidade.
·         A evolução do futebol tendeu a que o Ponta de Lança não tenha a preponderância que tinha outrora. No futebol de formação, estamos a formatar muito o 1x4x3x3 em que o avançado não tem muito a bola nem grande importância para o Jogar da equipa.
·         Para o desenvolvimento do jogador, é relevante que exista uma preparação do próprio para ser emprestado. Nesse caso, se for bom ele “chega e assume”!
·         Relativamente ao PL – no Sporting também existe um trabalho individual para esta “posição” – é indispensável que se oriente o processo de treino para a repetição de dinâmicas abertas para o desenvolvimento individual do jogador.
·         Na pré-época o quadro competitivo foi composto por 10 jogos contra equipas do CNS, tentando-se promover um elevado grau de exigência.
·         O próprio tira ideias do Basquetebol e do Futsal para as aplicar no jogo da equipa, em especial nos esquemas táticos.

Gilberto Freitas (Vitória SC):
·         Mais do que ganhar, deseja-se Formar – potenciando o individual dentro do colectivo. É preocupação tentar potenciar capacidades e qualidades que ainda vão aparecer no desenvolvimento desportivo e maturacional dos jogadores.
·         O Talento (ou jogador talentoso) desenvolve-se mais em contextos mais complexos. Assim, um Modelo de Jogo que seja mais exigente nos Princípios potencia o aparecimento de jogadores mais complexos.  
·         O desenvolvimento do jogador pode ser favorável quando o contexto permite a experimentação de outras posições em campo. Casos recentes no Vitória em que jogadores que jogam a determinada posição no clube são convocados à selecção nacional para jogarem noutras posições.
·         É muito mau criar rótulos aos jogadores. Ser o “novo Ronaldo” ou “novo Messi” pode ser muito prejudicial para o processo de Aprendizagem do jogador. Nesse aspecto, os empresários poderão ser muito nefastos com os seus feedbacks e juízos de valor.
·         Nas idades mais precoces da formação é importantíssimo haver um contacto com outras modalidades desportivas. No Vitória existe um caso muito interessante de prática multidesportiva que favoreceu o seu desenvolvimento como jogador, levando-o mesmo a chegar à selecção nacional Sub16 – André Almeida.

O Treinador e os Diferentes Contextos - António Oliveira

O treinador António começou por fazer uma breve apresentação do seu currículo, abordando a sua carreira como jogador – passagens por Benfica, Braga, Santa Clara e Oriental – e como treinador – adjunto do Tractor, do Irão, e adjunto da equipa sub19 da AD Oeiras.
O treinador António Oliveira considera que a CULTURA deva ser a base que sustenta do trabalho do treinador no estrangeiro, sendo que é a CULTURA que o ajuda a definir:
·         o Modelo de Jogo;
·         o Modelo de Treino;
·         o Modelo de Comunicação;
·         o Modelo de Observação.
Assim, António Oliveira considera pertinente que o Treinador, quando está no estrangeiro, seja um pleno conhecedor do País para onde vá exercer a sua profissão, conhecendo exaustivamente o contexto sociopolítico, a língua, a cultura desportiva, os hábitos alimentares, os costumes religiosos, os adeptos, a vida social e a formação dos seus habitantes – no caso jogadores.

·         Modelo de Jogo
Organização + Compromisso + Concentração + Confiança = Sucesso
Abordagem aos grandes princípios do Modelo de Jogo:
o   disposição dos jogadores em campo,
o   1ª e 2ª fases de construção,
o   lado fraco e lado forte,
o   linha defensiva em função da bola,
o   bola aberta vs bola fechada.

·         Modelo de Treino
Muita dificuldade foi encontrada na operacionalização dos exercícios, sobretudo no que se refere às exigências relativas à complexidade dos mesmos.
Devido também a algumas carências de ordem tático-técnica, chegou-se a utilizar o treino analítico para ensino de alguns comportamentos individuais.
Tendo em conta a experiência a sua experiência no Tractor, António Oliveira “mostrou” o Plano Anual de Trabalho da equipa, assim como o Microciclo Padrão, exemplos das Sessões de Treino e do Controlo das mesmas.

·         Modelo de Observação
Neste capítulo, António Oliveira falou sobre o processo de Observação e Análise das equipas adversárias, explicando, as muitas dificuldades que existem na recolha de dados sobre as diferentes equipas do campeonato.
Foi abordado o Relatório de Scouting do adversário, em que se dá um ênfase especial aos Pontos (Comportamentos e Jogadores) Chave do processo ofensivo e defensivo do adversário; ao Processo Competitivo – referente à análise descritiva da equipa; à evolução da própria equipa; e à estatística comparativa.


O Treinador e a Equipa – Liderança - Rui Lança

O palestrante iniciou a sua apresentação com uma série de referências académicas acerca da definição de Liderança.
Assim, podemos considerar a Liderança e as suas diferentes Dinâmicas como o processo inter-relacional e comunicacional que existe entre o Treinador, os Atletas, o Contexto e uma Inteligência Colectiva que define o grupo e a equipa.
O investigador referiu-se também ao seu trabalho académico de doutoramento em que entrevistou doze treinadores campeões nacionais em diferentes modalidades desportivas, procurando encontrar um padrão comum de comportamentos de excelência. No seu estudo, e através da relação entre a literatura e as entrevistas realizadas, constituíram-se quatro dimensões que são consideradas fulcrais para “justificar” o sucesso, sendo elas:
·         A liderança;
·         As acções do treinador;
·         A equipa técnica;
·         As relações.
Uma outra conclusão da sua investigação, foi a de que não existem perfis mais correctos do que outros para se ser um treinador campeão. Dessa forma, não importa tanto o que o treinador faz mas sim como o faz. Rui Lança destacou também os canais comunicacionais que se criam na passagem da mensagem que o treinador pretende. Muitas vezes, o treinador tem que utilizar estratégias indirectas para se fazer expressar, deixando que “outros” o façam por si (p. e. o capitão, o adjunto, um colega de equipa).
Embora Rui Lança não considere que não exista um “Perfil de Campeão”, ele considera  os seguintes denominadores comuns dos campeões:
Adaptabilidade                                Flexíveis                               Paixão
Genuíno                                           Actor                                      Tudo e todo
O outro                                              Introspecção                        Consequências
Tudo em função de um Colectivo

Essencial
O que faço                                       O que penso                                    O que sinto

Fundamental
O que gostaria de fazer
O que gostaria de pensar
O que gostaria de sentir


Organização Ofensiva – Prático - Vítor Maçãs

Na única apresentação prática do Congresso, tivemos o prazer de assistir a uma sessão de treino “oferecida” pelo Prof. Dr. Vítor Maçãs, em conjunto com os alunos da associação de estudantes da UTAD.
Com o objectivo fundamental de treino a passar pela Organização Ofensiva, o professor e treinador Vítor Maçãs estruturou o treino basicamente em duas partes.
Na primeira, foi realizado um exercício de passe em estrutura: Y e Y invertido, em que foram trabalhadas algumas dinâmicas comportamentais por parte dos jogadores. O exercício foi realizado primeiro sem oposição e depois com oposição, em que cada adversário estava circunscrito a determinada zona, fazendo uma oposição passiva.
Na segunda fase, assistimos a um jogo condicionado de GR+9x9+GR com oposição passiva em que se tentaram recriar as dinâmicas do exercício anterior, sobretudo nos corredores centrais, em qua apenas os médios interiores, os extremos e os laterias poderia tocar na bola. Após algum tempo, o jogo deixou de ter as condicionantes, tentando-se trabalhar os mesmo princípios da organização ofensiva de forma mais aberta.
Foi interessante assistirmos às instruções do professor, bastante activo e correctivo nos seus feedbacks, não sabendo, no entanto, se tal comportamento é o habitual de Vítor Maçãs.  


Desenvolvimento do Futebol Feminino  - Francisco Neto

O seleccionador nacional feminino começou a sua comunicação fazendo uma breve apresentação do organograma do Futebol Feminino nacional, no que à estrutura da Federação Portuguesa de Futebol diz respeito. Francisco Neto apresentou as equipas AA, Sub19, Sub17 e Sub16 nacionais, assim como as suas equipas técnicas.
Com um total de 2138 praticantes na época transacta, podem-se somar 15 a 20 jogadoras no estrangeiro assim como mais algumas luso-descendentes para se contabilizar o total de jogadoras de futebol portuguesas.
De todas, a mais conhecida é provavelmente Ana Borges, natural da cidade de Gouveia. (Nota: Não deixa de ser interessante que ao contrário do que se passa no futebol masculino, são muitas as jogadoras de top nacional oriundas do interior do país).
Neste momento existem 5 grandes projectos a nível nacional que tentam promover o desenvolvimento do Futebol Feminino.

1.    Liga Elite Feminina
Constituída até 14 equipas. 10 provenientes do campeonato regular + 4 formadas a partir dos clubes da Liga NOS masculina.

2.    Campeonato Nacional de Juniores Femininos
Disputado em Futebol de 9.
Tentar avançar o limite da competição mista até à idade de Sub17.

3.    Supertaça Feminina
Tentando aproveitar o dia com actividades de promoção do Futebol Feminino.

4.    Encontros Regionais e Nacionais de Futebol Feminino
Através da ligação entre a Federação Portuguesa de Futebol, o Desporto Escolar e as Associações de Futebol.
Constituída primeiro por uma Fase Regional aberta à todos, em que qualquer grupo ou colectividade pudesse participar: clubes, escolas, família. Os vencedores apuram-se para a Fase Final a disputar no mesmo dia da Final da Taça, disputada no Jamor.
5.    Centros de Treino/Formação de Futebol Feminino
Criação de espaços nas associações distritais de futebol próprios para o desenvolvimento das jogadoras referenciadas pela FPF. Estes Centros de Treino tentariam colmatar as carências de ordem técnica e táctica das jogadoras, com o incremento do número de treinos semanais. 


Estruturação e Preparação de uma Equipa - Daúto Faquirá, Vítor Oliveira e Luís Castro

Com a mais mediática das “Mesas Redondas” do Congresso, os técnicos Daúto Faquirá, que se encontra neste momento sem clube, Vítor Oliveira, treinador do GD Chaves, e Luís Castro do FC Porto B, deram a conhecer algum do seu trabalho diário enquanto treinadores no Alto Rendimento.

Luís Castro – FC Porto B:
·         Importa diferenciar o contexto da equipa para a podermos estruturar, para definirmos o seu propósito. No FC Porto B, deixámos de montar a equipa e o processo de treino em função do adversário. Devido ao elevado número de jogos da equipa, jogamos a dobrar e dessa forma descansamos a dobrar. Enquanto recuperação fazemos evoluir a equipa em alguma maneira para existir uma aquisição de princípios de jogo.
·         O plantel da equipa B deveria ser fechado no sentido equipa A para a equipa B, para que não houvessem tantas desconfianças.
·         Dormir bem, hidratar bem e comer bem é a melhor forma de recuperar, funcionando melhor que a recuperação activa. Alguns jogadores sentem-se muito confortáveis com a utilização da câmara de frio, para acelerar a recuperação. Nesta fase da época, tão sobrecarregada em número de jogos, é muito importante ter a cabeça limpa, viver num bom estado emocional. Até o próprio treinador precisa de recuperar – no treino da manhã, Luís Castro limitou-se a observá-lo entregando-o aos seus adjuntos.
·         Na planificação do morfociclo é hierarquizada a prioridade dos exercícios em função dos dados recolhidos referentes ao último jogo da equipa. Assim, é periodizado o treino tendo em conta os dados relativos por exemplo ao número de entradas em zonas de finalização, às reacções eficazes à perca da bola, etc.
·   Em quase todos os treinos o 11x11 aparece no treino, podendo ser devidamente condicionado, em função dos princípios de jogo.

Vítor Oliveira – GD Chaves
·         A escolha do plantel é o elemento mais importante para se desenvolver um trabalho com sucesso. Também ajuda conhecer extraordinariamente a  competição em que nos inserimos. Na operacionalização do processo de treino, todas as semanas há ajustes e reajustes, em especial durante o Inverno onde as condições do treino (leia-se terreno) são bastante difíceis. A criação de objectivos é também muito importante no que toca à preparação da equipa para os diferentes períodos da época.
·         Referência às equipas B que actuam na II Liga que utilizam os jogadores da equipa A como lhes convém, alterando muitas vezes a verdade desportiva. Neste ponto, a utilização desses jogadores agrava-se nos jogos das “grandes decisões” como a conquista do título ou a luta pela manutenção.
·         Por vezes “não se treinando, faz-se um bom treino”. Com folga à segunda-feira, a terça-feira é destinada à execução de corridas lentas, bolas paradas, combinações simples. A recuperação é ajustada em função do quadro competitivo e da altura do campeonato em que é feito.

Daúto Faquirá – sem clube
·         É o “bom senso” (na operacionalização do processo de treino, nomeadamente na questão do nº de treinos diários, no nº de folgas, nos próprios objectivos da sessão de treino, etc.) que permite que os treinadores tenham sucesso. É impossível ter-se sucesso sem que exista uma boa equipa técnica.
·         Na questão da recuperação, pode-se também utilizar a estratégia de alterar volumes e intensidades permitindo uma melhoria do estado de recuperação.
·         Considero a segunda-feira o dia de eleição para o descanso semanal. Já na quarta é dia de realização de duas sessões de treino.


O Calendário Desportivo como Meio de Melhoria da Modalidade  - Carlos Soares

O coordenador técnico da AF Vila Real começou a sua comunicação com a referência às assembleias gerais da associação, já que é neste órgão que todas as decisões sobre o futebol distrital são tomadas, em especial o assunto dos quadros competitivos (Nota: talvez os clubes e os seus coordenadores técnicos devessem valorizar este órgão procurando, também eles com as suas experiências, apresentar propostas que visam o desenvolvimento do futebol regional).
Em seguida, o palestrante dedicou uma boa parte da sua apresentação à estruturação dos quadros competitivos da AF Vila Real, em função do que a literatura e a prática noutras associações vão sugerindo. Tendo em conta as diferentes etapas de desenvolvimento da criança e jovem no desporto em geral e no futebol em particular, muito se tem reflectido dentro da associação sobre questões como:
·         A ausência ou não de campeonato no escalão de Benjamins (Nota: ao contrário do que foi dito, a AF Vila Real não é pioneira na ausência de campeonato classificativo neste escalão, já que na AF Guarda nunca existiu qualquer competição estruturada, funcionando como encontros esporádicos mensais sem qualquer relação com tabelas classificativas);
·         Aplicação das regras do Futebol de 9 em escalões como os Sub13 e/ou Sub14;
·         Utilização da regra + 1 jogador no Futebol de 7 quando determinada equipa tem uma desvantagem de 5 golos;
·         Possibilidade de realização de mais jogos por parte das crianças, com a existência de mais escalões etários de competição.


Scouting – Equipas/Jogadores O que Ver/Como Aplicar – André Ribeiro, Rui Malheiro e Ricardo Damas

Com a Mesa Redonda dedicada à Observação e Análise de Jogadores e Equipas foi extremamente interessante ficarmos a conhecer melhor as ideias e a metodologia de trabalho de quem anda a Top. Foi com muita atenção que estivemos a ouvir e a aprender com André Ribeiro, treinador de formação e Scout do FC Porto, Rui Malheiro, a representar a cada vez mais prestigiada plataforma Talent Spy, e Ricardo Damas, a dar-nos conta das suas ideias e das do seu Sporting CP sobre o Scouting.

Rui Malheiro (Talent Spy)
·         O padrão é tudo que queremos encontrar numa análise de uma equipa ou de um jogador. Assim, quando observamos um jogador procuramos identificar as suas qualidades nas suas dimensões técnico-táctica ofensiva, técnico-táctica defensiva, física e psicológica. Já quando observamos uma equipa damos ênfase aos momentos do jogo de organização ofensiva e defensiva, transições defensiva e ofensiva e aos esquemas tácticos defensivos e ofensivos.
·         Há scouts independentes que trabalham para equipas técnicas de clubes.
·         Antes de fazermos o trabalho de scouting de qualquer equipa ou jogador externa/o devemos fazer a devida análise da nossa própria equipa.
·         É necessário existir um conhecimento mútuo entre o scout e o treinador. Tanto o scout saber muito bem aquilo que o treinador quer, tal como o treinador saber muito bem como o scout observa e analisa. Sobretudo quando se tratam de formas de trabalhar diferentes que podem ir da realização de um relatório de 6 ou de 30 páginas.
·         Na construção de um relatório é relevante indicar o jogador(es) chave da equipa. Contudo, é ainda mais pertinente identificar o seu papel na equipa e o porquê de ele ser a “chave”.
·         Enquanto scout e colaborador de equipas profissionais, nunca iremos contratar jogadores pelo que eles jogam no “Youtube”. 
·         É extremamente relevante conhecermos os diferentes contextos do jogo, os diferentes futebóis, se preferirmos, para conseguirmos antecipar as qualidades de um jogador quando compete em contextos diferentes do seu habitual. O que mais me cativa num jogador é a sua tomada de decisão e é a sua interpretação do jogo, a sua leitura da circunstância.
·         Quando há possibilidade de termos um gabinete de scouting, deveremos criar uma base de observação da nossa própria equipa.
·         Considero a inteligência na tomada de decisões como uma das qualidades mais importantes num jogador, assim, quando o jogador é excessivamente individualista – quase como um egocentrista do jogo – poderá atrapalhar o seu desenvolvimento.
·         Para além da Talent Spy –da qual Rui Malheiro é o Chief Scout – também utilizo a WyScout para a o meu trabalho de prospecção.

André Ribeiro (FC Porto)
·         O meu trabalho vai de encontro ao que o treinador quer, sendo que cada vez mais o treinador procura saber mais sobre os esquemas tácticos dos adversários.
·         Não se pode fugir ao “olho do treinador”, já que é com ele que eu tenho que interpretar o jogo. Eu até posso ter um juízo de valor sobre determinado jogador ou comportamento da equipa mas tenho de me pôr no lugar do treinador e da sua maneira de ver as coisas.
·         Concordo com Rui Malheiro aquando da valorização do conhecimento sobre a própria equipa antes de qualquer trabalho externo.
·         Aquando da visualização dos relatórios por parte equipas, umas podem-se mostrar os pontos fortes dos adversários, outras já não, devido à forma motivacional e comportamental como elas reagem. E isso é relativo tanto a jogadores como a treinadores.
·         Quando se fala em imagens nos relatórios, é diferente apresentar-se um frame ou um vídeo. Com um frame, por ser uma imagem estática, até se podem tentar mostrar comportamentos negativos do jogador, quando na realidade ele até foi eficaz. Mas fruto da circunstância do frame o jogador até não adopta o comportamento mais correcto.
·         A nossa equipa deverá sempre tentar anular o “jogador chave” da equipa adversária de uma forma colectiva, e não com estratégias que o acompanhem individualmente.
·         O scout tem de ter muita paixão por aquilo que faz devendo ser o mais low-profile possível.
·         Devemos balizar os nossos gostos em consonância com os do treinador. No meu caso específico, o que me cativa mais num jogador é a sua técnica, o gosto que tem pelo jogo e a sua especificidade que confere à sua posição, tentando fazer sempre uma projecção de como é que o jogador X se adapta ao contexto Y.
·         Num contexto distrital poderá trabalhar-se de forma semelhante Às profissionais, adoptando obviamente os recursos à sua disposição.
·         A quem passa pelos distritais é-lhe permitida uma maior adaptabilidade que lhe potencia a qualidade como treinador.
·         Utilizo o software LongoMatch para ver se o jogador está a evoluir ou não, aquando da análise de vídeo do seu treino.
·         Um dos indicadores mais importantes da qualidade do jogador é a sua resiliência.
·         A família poderá ser um dos maiores entraves ao desenvolvimento de um jogador.
·         As plataformas de auxílio ao meu trabalho que utilizo são a LongoMatch e a WyScout.

Ricardo Damas (Sporting CP)
·         Muitos treinadores chegam a um ponto de detalhe que quase querem saber que número de chuteiras determinado jogador calça.
·         Qualquer um que perceba de futebol poderá fazer um relatório. A questão primordial é encontrar e contextualizar a informação junto em conformidade com o que o treinador quer.
·         Existe uma necessidade muito forte – com resultados positivos – ao recurso às imagens, na construção dos relatórios.
·         Quando o conhecimento sobre o contexto competitivo é extenso, como o são, por exemplo na I e II Ligas, o foco do relatório do scout deverá ser o comportamento colectivo das equipas.
·         O talento é observável por parte de toda a gente, mas é o “olhómetro” que permite uma sensibilidade que o ajuda a destacar ou não. Quando ele acaba por se destacar e é transferido para outros contextos, mesmo que a nível experimental, esses mesmos contextos acabam por ser agentes “moldadores” da sua qualidade e do seu potencial, fomentando ou inibindo o seu desenvolvimento. Por exemplo, alguns jogadores brilham nas captações e depois de contratados acabam por nem se afirmar.
·         O scout faz o seu trabalho sem ser reconhecido, não porque não lhe é reconhecido o seu valor, mas porque convém que ele não seja “mediático”.
·         Não deixa de ser curioso que os defesas continuam sem dar tanto nas vistas.
·         Eu filmo os meus jogos (escalão Sub10) com a intenção de melhorar e corrigir a minha própria equipa. Considero ridículo fazer-se “match analysis” nestes escalões.
·         Também utilizo o vídeo para filmar os treinos.
·         No nosso trabalho no Sporting, utilizamos uma plataforma própria de observação e análise de jogadores e equipas.

Apresentação dos Resultados Obtidos por GPS – Bruno Gonçalves

O investigador da UTAD começou a sua palestra fazendo referencia a algumas das tecnologias utilizadas na análise de treino e de jogo nos Jogos Desportivos Colectivos, em especial no Futebol.
É intenção de quem trabalha com as novas tecnologias da análise de dados recolhidos com a observação e monitorização dos jogadores servir para optimizar as decisões dos treinadores.
Podemos também constatar que a performance aumenta em função do uso efectivo dos dados oferecidos por essas mesmas tecnologias.
dados + informação + conhecimento = acção
A individualização dos dados permite:
·         Especificidades fisiológicas;
·         Perfil em função do posto específico;
·         Perfil real da carga/resposta ao treino;
·         Optimizar, potenciar e controlar a performance.
O palestrante abordou ainda as investigações sobre lesões no desporto que mais recentemente têm surgido na relação entre a carga e o retorno ao treino após lesão nomeadamente no estudo da probabilidade do jogador se voltar a lesionar outra vez.

Com esta apresentação do homem da casa, deu-se por terminado este longo dia de partilha de conhecimento futebolístico no III Congresso de Futebol do Núcleo de Estudantes de Desporto da UTAD.