Passou-se antontem várias vezes no Vitória SC vs Belenenses SAD. Mas infelizmente, não é caso
único.
Com
tantas evoluções que os Jogares vão acolhendo consoante a procura da
superioridade perante o adversário, lamentamos que determinados comportamentos
continuem a vigorar no alto rendimento de uma forma tão presente.
Não
temos acesso estatístico ao jogo de ontem, mas a quantidade de passes entre os
centrais do Vitória com certeza que atingiu os dois dígitos muito rapidamente.
Contudo,
não foi tanto a quantidade que mais nos intrigou mas sim a
"qualidade" dos mesmos. E colocamos "qualidade" entre
aspas, pois não falamos propriamente na execução desses passes mas mais na
necessidade justificativa dos mesmos. Sobretudo porque reconhecemos bastante
qualidade construtiva, principalmente, a Abdul Mumin. E vermos os defesas centrais com
tanto espaço para jogar devido ao posicionamento recuado dos avançados do
Belenenses SAD a optarem tantas vezes pelo passe central-central, deixa-nos um
pouco aborrecidos. E quando estes são feitos a pouca intensidade, sem grande
propósito de desorganizar o adversário, pior.
Esperamos
sinceramente que as belas verticalizações de Mumin, tanto em progressão como em
passe, sejam mais utilizadas no futuro. Do Mumin e dos outros todos defesas-centrais que não passam para o lado "por passar".
No Mundo contemporâneo cada vez
mais apressado, tendemos a esquecer quem não o merece. O que é mau parece
ficar. Já o genial precisa de ferramentas para ser relembrado.
Na presente época desportiva, isso
está a acontecer com Cesc Fàbregas. Com um papel diminuto na estratégia de
Sarri, os holofotes desapareceram daquele que foi um dos ícones de uma geração
espanhola que reinventou o Futebol, e que desde 2004/2005 não faz menos de 30
jogos numa época, ao mais alto nível.
Nascido em 87, Fàbregas é um dos
craques da classe vintage de La Masia, a mesma de Piqué e Messi. Quis Wenger
que com apenas 17 anos, época de 2003/2004, Fàbregas iniciasse uma bela
história de amor com a Premier League.
Embora só agora tornado oficial, a
31 de Dezembro de 2016 e 293 jogos depois da sua estreia para o campeonato, o
médio-centro espanhol atingiu o record de menos jogos necessários para realizar
100 assistências para golo na Premier League.
Tentámos ver todas elas. Não
conseguimos. Mas fomos à procura de padrões comportamentais que caracterizassem
esta difícil arte que é a de dar golos a marcar.
Antes de mais, importa que referir
que olhamos para Fàbregas como um dos melhores jogadores do Mundo a Passar a
bola aos seus colegas. E quando falamos em Passar, escrevemo-lo com letras
maiúsculas de propósito porque para nós o Passe não se mede só pela qualidade
da sua direcção.
Aquilo que de melhor vemos neste
que é um dos melhores é o seguinte:
·O domínio perfeito daquilo que são as trajectórias da
bola – quanto a nós é uma das capacidades mais negligenciadas por quem procura
qualidade num jogador. Contudo, a competência do domínio da trajectória antes e
após a saída da bola do jogador é uma qualidade imprescindível para quem bate
records no topo do Alto Rendimento. Fàbregas teria de fazê-lo e isso é visível
ao longo de muitas das suas assistências em que usa bolas cortadas com o seu pé
dominante para um lado ou para o outro; trajectórias aéreas mais directas ou
mais altas; recurso a um pé ou ao outro para aplicar diferentes direcções; etc.
Mais do que ter um conhecimento alargado sobre o Jogo que lhe permite fazer
essa análise, Fàbregas tem depois a qualidade suficiente para ser eficaz na
manifestação prática das mesmas.
·O controlo exímio da relação entre o tempo e o espaço
– Fàbregas manifesta uma qualidade soberba naquilo que é a sua interpretação em
relação ao Espaço, nomeadamente àquele que possibilita ao seu colega ficar em
posição de golo. Mais do que ele próprio estar no sítio correcto – o que grande
parte das vezes parece acontecer, ele precisa é de fazer chegar a bola a
determinado espaço específico. Contudo, o controlo do Espaço não chega por si
só, precisa do devido ajuste em relação ao Tempo da acção. Por vezes o espanhol
tem de antecipar, outras tardar e outras até continuar determinada linha
temporal de circunstâncias do contexto que lhe permitam realizar o Passe para
golo. Esta qualidade nota-se ainda mais na cobrança de bolas paradas, já que é
através de cantos e livres indirectos que Fàbregas tantas vezes assiste;
·A extraordinária Cultura de Jogo – sobretudo no
processo ofensivo, o nº 4 do Chelsea tem um posicionamento fantástico naqueles
que são os espaços que ligam meio-campo e ataque. Quer naquilo que é a
colocação dos seus apoios, quer na sua visão periférica estática e dinâmica
(consideramos aqui o seu constante mexer de pescoço), quer na interpretação da
informação circunstancial do jogo, ou seja, aquilo que são as condicionantes
que o levam a tomar determinada decisão. Parece haver um processamento quase
cibernético daquilo que são o número e a velocidade de soluções que elepode oferecer à sua equipa para a resolução
de determinado problema. Tal é ainda mais potenciado pelo facto do jogador ter
tido a necessidade de se ajustar ao longo da sua carreira a Jogares bem
distintos naquilo que é a sua matriz ideológica. Neste particular, acreditamos
que a Escola que teve em La Masia foi bastante importante para a sua construção
enquanto jogador tão culto e flexível (comportamentalmente falando).
Ainda estamos no início da época, é
certo. Mas esperamos que esta ausência de referência a esta recordista mundial,
seja apenas um lapso…