Quando
nos reparamos com determinado jogador nos Jogos Desportivos Colectivos que
apresenta qualidade e eficácia nas suas acções e comportamentos, tendemos logo
a caracterizá-lo como talentoso ou experto. Por isso, não é qualquer jogador
que é considerado dessa forma, estará sempre sujeito a algumas subjectividades
de avaliação por parte de quem o julga.
Infelizmente,
ao longo da pesquisa efectuada não foi possível encontrarmos uma resposta
conclusiva para ambas as perguntas. Desde logo pelo facto de as próprias
definições de Talento e de Experto se coincidirem em muitos pontos. Por outro
lado, o facto de existirem diferentes perspectivas quanto à formação dos
jogadores talentosos e expertos nos JDC, provam a incerteza que ainda abunda
nesta problemática, estando a perspectiva genética num dos extremos, a
ambientalista no outro e a perspectiva de interacção entre o inato e o ambiental,
no meio delas. (Costa, 2005).
Abordando
o conceito de Experto, vários
investigadores, com especial incidência para os estudos de Janelle e Hillman,
2003, in Ericsson & Starkes, 2003, se debruçaram sobre o assunto e
concluíram que existem características que são transversais a todos eles.
Normalmente designados por “Domínios”, os expertos dominam a área “Cognitiva”,
“Técnica”, “Emocional” e “Fisiológica”. De notar que esses domínios estão
obviamente interligados uns com os outros e para se manifestarem precisam-se
mutuamente. Além disso, esta corrente defende ainda a ligação muito estrita
entre o Expertise e a prática, indo de encontro à ideia de que o Expertise é
alcançável através de um processo de prática e aquisição que permita a
aprendizagem e o desenvolvimento dos diferentes domínios (Costa, 2005).
Domínio Técnico - todo o jogador experto tem de dominar os mais variados
recursos técnicos que lhe permitam ser funcionalmente eficaz nas suas acções e
comportamentos em jogo, apresentando por isso um elevado grau de coordenação
sensoriomotora (Dias, 2005).
O
experto tem de dominar os seus recursos técnicos de uma forma contextualizada
com o próprio jogo. Ou seja, para ser considerado tecnicamente experto nos JDC,
o jogador não tem necessariamente de saber fazer muitos truques com a bola, do
género dos malabaristas circenses ou dos “freestylers”. Tem é de saber resolver
tecnicamente os vários problemas que vão surgindo ao longo do jogo, acolhendo
em si um vasto leque de recursos que lhe permitam ultrapassar esses mesmos
obstáculos.
Esse
mesmo domínio técnico é potenciado através da influência do treino. Pode-se
afirmar que “o treino prolongado e sistemático promove o reconhecimento, a
recordação e a retenção de modelos de movimentos coordenados, refinados e
eficientes” (Janelle e Hillman, 2003). O treino permite aos expertos construir
um conhecimento técnico-específico sobre o jogo. Esse conhecimento ajuda-os a
realizarem as suas acções eficazmente de uma forma automática, que os jogadores
não-expertos não conseguem.
Domínio Cognitivo – todo o jogador experto terá de saber analisar e
interpretar o jogo, percebendo quais as soluções mais adequadas para resolver
os diferentes problemas que surgem. É através da especialidade neste Domínio
que o jogador determina a melhor estratégia a utilizar na circunstância do jogo
(Dias, 2005).
São
várias as capacidades que incorporam este domínio, como a tomada de decisão, a
memória, a percepção e a antecipação, sendo por isso considerado o Domínio mais
complexo nos JDC (Dias, 2005).
O
Domínio Cognitivo alberga em si dois tipos de conhecimento específico: o
declarativo, relacionado com “o que fazer”; e o conhecimento processual
relacionado com o “como executar” (Dias, 2005).
Segundo
French & Thomas (1987) e McPherson & Thomas (1989, in Guilherme
Oliveira, 2004: 63) os expertos têm
assim a capacidade de:
1.
Reconhecer padrões de jogo com maior rapidez e precisão.
2.
Detectar e localizar os aspectos mais relevantes que acontecem no seu campo
visual, com maior rapidez e precisão.
3.
Antecipar as acções dos adversários, baseando-se em pistas visuais, mais
eficazmente.
4.
Revelam um conhecimento superior em situações mais prováveis de acontecer.
5.
As suas decisões tácticas são mais ajustadas à situação.
6.
Têm um conhecimento declarativo (matérias específicas) e um conhecimento
processual (acções) mais estruturado e aprofundado.
7.
Possuem capacidades superiores de auto controlo.
Também
ao nível da memória os expertos parecem estar mais evoluídos, já apresentam um
nível mais completo e diferenciado, que lhes permite recuperar a informação de
uma forma mais rápida e eficiente.
Domínio Emocional – o experto, através da gestão emocional, tem a
capacidade de seleccionar e direccionar a informação do jogo associando-a mesmo
a estados positivos ou negativos.
Segundo
Janelle & Hillman (2003) o domínio emocional está dividido em duas áreas: a
regulação emocional (habilidade para influenciar e exercer algum controlo sobre
a emoção) e as perícias psicológicas (factores que podem influenciar a
prontidão emocional).
Segundo
Filipa Dias (2005), a Emoção nos expertos atua e influencia positivamente ainda
sobre:
·
Aprendizagens e respectivos
conhecimentos;
·
Memórias;
·
Tomada de decisão;
·
Concentração.
Domínio Fisiológico – todos os jogadores só alcançam o expertise se
fisiologicamente conseguirem responder às exigências top de determinado JDC.
Contudo, o meio de alcance do expertise fisiológico suscita alguma discussão na
comunidade científica.
Enquanto
alguns investigadores como Wilmore & Costill (1991, in Janelle &
Hillman, 2003) que, com excepção da altura do indivíduo, acreditam que factores
morfológicos e tipos de fibras musculares podem sofrer alterações através de
uma prática extensa e sistemática; outros fisiologistas do desporto defendem
que os limites impostos ao jogador são geneticamente determinados.
Para
muitos fisiologistas do desporto, existe então a ideia que um atleta estará pré-determinado
a alcançar o top, já que terá condições fisiológicas para lá chegar. Para
outros investigadores, o treino volta a ter um papel fundamental na melhoria
das suas capacidades fisiológicas, dando importância à quantidade e qualidade
do treino a que o jogador é sujeito.
Além
disso, este domínio de expertise é quase exclusivo do desporto, já que noutras
modalidades não tem qualquer relevância (Costa, 2005).
Analisando
agora o conceito de Talento
que encontramos na literatura, vemos alguns pontos divergentes quanto à
comparação com o conceito de experto, mas sobretudo vemos muitos pontos comuns
com este.
Se
no caso do Experto, o treino e a prática parecem ser os principais meios de
alcance do expertise, no caso do Talento, o dom inato e a aptidão natural
parecem influenciar bastante a definição deste conceito.
Mesmo
com esse “extra” genético e biológico, os indivíduos talentosos são
predispostos a serem talentos mas não deixam de necessitar de estimular o seu talento
para serem na realidade Talentos. Parece confuso, mas, como diz Garganta (2006)
“antes de se submeter a um processo de treino, pode existir um talento, mas o
jogador só existe depois disso”. É necessário existir, por isso, um processo de
aprendizagem que permita ao talento-potencial ou talento-virtual ser
talento-real.
O
conceito de talento está assim mais ligado à perspectiva genética, nunca
descurando o lado prático e treinável de si próprio. Como poderemos ver nesta
abordagem de Garganta, os pressupostos que definem talento enquanto jogador de
futebol são também eles balizados por quatro elementos, parecidos aos quatro
domínios caracterizadores dos expertos:
•
Habilidade técnica em velocidade; • Disponibilidade táctica • Eficiência
orgânica e muscular: agilidade, velocidade, reacção rápida, rápidas mudanças de
sentido e direcção; • Valor moral elevado: autocontrolo, coragem, autoconfiança,
combatividade, carácter.
Dá-se
ainda a devida importância onde o talento está a ser julgado. Ou seja, o
talento estará sempre dependente da sua contextualização, levando-me mais uma
vez a pensar na questão da subjectividade da avaliação de talento (tal como
abordei no conceito de experto). O talento tem por isso de o ser de uma forma
superior e demarcativa dos outros indivíduos (Moita, 2008).
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É
inclusive aceite, que mesmo quando um jogador apresente debilidades em
determinado domínio de expertise ele não deixe de ser considerado experto ou
talentoso, desde que à sua maneira tenha algo de diferente, especial, e de
preferência qualitativamente superior que deva acrescentar ao jogo (Dias, 2005).
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