Deve haver poucos treinadores no mundo que não queiram os seus jogadores criativos.
Nas (re)leituras que andamos a fazer do livro "A Preparação ?Física? no Futebol" de Rafel Pol, adjunto de Luís Enrique, sentimos a necessidade de partilhar a seguinte "definição" de Criatividade:
"A Criatividade, conceptualizada como a capacidade do jogador de produzir trabalho que seja por sua vez original, inesperado, apropriado e eficaz no contexto em que se expressa"
Numa altura em que "tudo" é estratégia, controlo e detalhe, não deixam de ser os jogadores originais e imprevisíveis, aqueles que mais nos cativam.
O
ano de 2020 está a ser um ano um ano bem difícil que por razões óbvias, já
todos o sabemos.
Paralelamente,
também o está a ser no que diz respeito à Criatividade. No mesmo ano perdemos
Sir Ken Robinson, expoente máximo da investigação e reflexão sobre
Criatividade; e Diego Maradona, um dos jogadores mais Criativos da História do
Futebol, senão aquele que melhor manifestou esta capacidade.
Por
coincidência, já há muitos anos que não era exigida à sociedade que fosse tão
criativa como nos dias de hoje. Seja por uma questão de tentar encontrar formas
de se divertir, de trabalhar ou até de sobreviver em contexto de tamanhos
constrangimentos e confinamentos.
Também
no Futebol, e fruto da evolução (?) do Jogo, urge a necessidade do jogador e da
equipa serem criativos e imprevisíveis perante o adversário, como forma de
ultrapassar a crescente preponderância da dimensão estratégica que o Futebol de
hoje acarreta.
Ao
vermos Futebol português, existe um jogador que nos últimos anos nos tem
cativado a tentar contrariar essa tendência mais “fechada” que o jogo tem tido:
Falamos de Adel Taarabt.
Na
mesma altura que choramos a morte de Maradona e nos lamentamos de uma forma
gritante da ausência de Criatividade no Futebol actual, assistimos a uma
crucificação daquele que poderá ser o jogador mais Criativo que passou por
Portugal nos últimos anos.
Quem
ataca o marroquino justifica-o na maior parte das vezes com o reducionismo da
estatística das “bolas perdidas”, desprezando a premissa preconizada por Vítor
Frade de que a estatística é muitas vezes como o biquíni, mostrando muita coisa
mas tapando o essencial.
Outro
“problema” que Taarabt parece manifestar prende-se com o facto de ele não ser
um jogador que goste muito daquilo a que muito chamam das “amarras tácticas” do
jogo. Ao contrário do que muitos treinadores (?) querem para a sua equipa,
Taarabt nem sempre respeita uma cobertura defensiva, nem sempre preenche o
espaço do duplo-pivot de uma forma mais eficaz e nem sempre toma uma opção
demasiado segura. Ou seja, Taarabt mostra muitas vezes dificuldade em respeitar
os sub-princípios dos sub-princípios que muitos treinadores procuram ver
implementados nas suas equipas.
Treinadores
esses que enquanto choram pelo desaparecimento do “Futebol de Rua”, são muitas
vezes os primeiros a castrar ou a condenar os jogadores que trazem aquilo que
melhor as ruas lhes deram para o Estádio.
Com
todo o devido respeito, por aqui seremos sempre a favor dos Taarabts desta
vida. Enquanto podermos, escolheremos sempre a Criatividade, a Imprevisibilidade
e a Fantasia…
Nos
últimos anos, muito se tem falado de Criatividade no Futebol. Talvez por
assistirmos a um equilíbrio cada vez maior entre as equipas, esperamos que
exista algum jogador que tende em desequilibrar e desordenar toda a disciplina
táctica que vamos assistindo por os diferentes campeonatos.
São
muitos os autores que se têm debruçado sobre o tema. Uma das conceptualizações
mais interessantes é a de Rafel Pol, preparador “físico” do FC Barcelona, que
define a Criatividade como a capacidade do jogador produzir trabalho que seja
original, inesperado, apropriado e eficaz no contexto em que se expressa.
Por
aqui, somos bastante apreciadores das diversas manifestações daquilo que é um objecto
ou uma performance Criativa. Música, artes plásticas, educação, desporto em
geral e Futebol em particular, são fenómenos que nos cativam sempre que existe
a exteriorização do processo Criativo, mostrando que ainda há muita coisa por
“inventar”.
No
caso concreto da expressão Criativa no futebol, reconhecemos a importância que
a dimensão colectiva e contextual do Jogo conferem à sua concretização. Assim,
consideramos que determinado comportamento individual ou colectivo em jogo só
possa ser considerado Criativo quando concretizado de forma eficaz pelo(s)
seu(s) interveniente(s).
Neste
vídeo, poderemos ver aqueles que são considerados 30 dos melhores passes
criativos da história do Futebol. Não deixando ser uma classificação subjectiva
ao gosto e análise de cada um, nota-se que a qualidade dos jogadores e das suas
acções é extraordinária.
Através
da observação e da interpretação que o vídeo nos transmite, verificamos o
seguinte:
·Existe um domínio
NeuroMotor extraordinário da parte dos seus intervenientes. Para todos os
jogadores-passadores presentes no vídeo, a bola não lhes é nenhum corpo
estranho, pelo contrário. Nestes casos, a bola aparece como mais uma parte do
seu próprio corpo, ou invocando o Professor Vítor Frade, a bola é-lhes uma
“Apêndice Corporal” que eles dominam na perfeição e das mais diversas formas. Enquanto
existem jogadores que quando têm a bola sob determinados constrangimentos
específicos espácio-temporais olham para ela como um problema, estes jogadores
mostram-se bastante à vontade com ela, utilizando-a de forma fluída e natural.
Acreditamos por isso que, mais do que valorizar a necessidade da melhoria da
literacia NeuroMotora específica do Jogo de Futebol, importa treiná-la e
contextualizá-la, fazendo com que se mostre eficaz e eficiente, sobretudo nos
momentos de bastante constrangimento espácio-temporal.
·Em caso algum do
vídeo a Criatividade é encarada de forma individual. Em especial por se tratar
de uma compilação de passes criativos, verifica-se que os mesmos só são eficazes
quando “acompanhados”, pelo menos, por mais do que um jogador (jogador
passador/jogador receptor). Nem sequer estariam no vídeo se fossem tratados de
outra forma. Ou seja, não é fácil considerar que determinado jogador que
executa o passe é criativo se não houver outro jogador que lhe acompanhe o
processo criativo e se predisponha a ser o receptor. Para além desta
inter-relação específica, existe ainda a interpretação destes jogadores daquilo
que é o seu envolvimento e as suas condicionantes. Em especial, o
jogador-passador, por ter a bola em seu poder, tem de ter uma capacidade
fantástica da leitura de jogo (colegas, adversários, baliza, zona do campo) e
de processamento de toda a informação que lhe permita a decisão-acção.
·No quotidiano a
expressão “pensar fora da caixa” é muitas vezes conectada ao processo criativo.
Contudo, quando um jogador “pensa fora da caixa” no processo de treino de
futebol e se põe a “inventar” é muitas vezes repreendido por manifestar esse
comportamento (na nossa opinião, qualidade). Acreditamos que grande parte dos
passes que vemos no vídeo são bastante difíceis de executar na sua dimensão
mais táctico-técnica, e que não estão ao alcance de muitos jogadores. É um
risco elevado tentar fazê-los. Mas não deverá o jogador, pelo menos, tentar? Ao
olharmos para o vídeo imaginamos os milhares de feedbacks que os treinadores
(nós incluídos) tomam junto dos seus jogadores exigindo outra tomada de
decisão, 99% dos casos, mais segura e menos arriscada. Contudo, e contra nós
falamos que, ao fomentarmos esse tipo de tomada de decisão de abolição do risco
não se está a contribuir para o desaparecimento da expressão criativa no
futebol?
Quando
vivemos numa época onde existe a necessidade de tentarmos culpabilizar tudo e
todos, talvez esteja na altura de nós treinadores assumirmos a responsabilidade
de não vermos mais vezes momentos como os do vídeo, nas diferentes competições
que tomam conta do Futebol. Que esteja presente no treino mais literacia
NeuroMotora, mais Especificidade e mais Risco! De certeza que veremos no Jogo
mais Criatividade!