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quinta-feira, 25 de março de 2021

Relatório de Scouting #1 - Andreas Schjelderup

Parecem estar na moda os miúdos de 16 anos que jogam! Andreas Schjelderup tem estado em altas na últimas semanas. Um verdadeiro diamante nascido no
FK BODØ/GLIMT que está ser limado no FC Nordsjaelland.

👍É daqueles jogadores excitantes só pela forma como se relaciona com bola. O seu jogo de pés faz lembrar o daqueles jogadores habilidosos de Futsal, dada a relação tão próxima que ele tem com a bola, sendo por isso natural que a qualidade de drible é aquilo que nos chama mais a atenção no Andreas.
É um jogador muito ágil no 1v1, fazendo valer uma superioridade qualitativa individual num enquadramento colectivo. Ou seja, embora se faça valer do individual, não é individualista.
Destro, já marcou e assistiu com a canhota.

👎Precisa de melhorar a sua capacidade defensiva. Tanto a uma escala mais individual como colectiva, o Andreas mostra pouca agressividade e determinação no processo defensivo. Muitas vezes apenas "esboça" uma ligeira pressão ao portador da bola, permitindo que este tenha bastante liberdade para atacar.
Dado o posicionamento que ocupa muitas vezes em campo, que lhe exige maior competência defensiva, esta sua abordagem mais ligeira pode comprometer bastante a sua equipa, pelo que poderá ser necessário reflectir melhor sobre o seu posicionamento.

💡Fazer parte de um clube com a cultura de juventude do Nordsjaelland assim como de toda uma geração de talentos noruegueses, permite antever uma boa oportunidade de investimento neste jogador.
O facto de ter passado ainda pela formação do Bodø/Glimt antevê que Andreas esteja a criar boas bases desportivas e humanas para o futuro.
Mantendo a irreverência, imaginação e criatividade no seu jogar, estamos perante um miúdo que pode desbloquear individual e colectivamente uma estrutura defensiva adversária bastante coesa.

⚠️Trata-se de um miúdo com enorme potencial, podendo assim chamar a atenção de grandes clubes europeus, à semelhança do que fez outro talento adolescente Norueguês, Martin Odegaard. Caso desperte a atenção de colossos europeus, fica mais difícil para clubes mais humildes conseguirem adquirir o seu passe.
O facto de ainda ser bastante novo e vir a ser contratado por um clube de topo mundial, pode criar no jogador algum deslumbramento, sendo assim necessário avaliar melhor a componente emocional do jogador.



domingo, 7 de março de 2021

Crítica de Leitura - "Descodificando o Treinador e o Jogo" de Rémulo Jónatas

Depois de termos acompanhado o Rémulo Jónatas e a sua “Quarentena da Bola” através das suas partilhas diárias em vídeo, achamos importantíssimo que as mesmas tivessem sido escritas em papel.

O autor do fenómeno achou o mesmo e criou o livro “Descodificando o Treinador e o Jogo – Do Jogo Pensado ao Jogo Jogado – Um guia completo” da editora Prime Books.

Contudo, desengane-se quem achaque o livro é uma transcrição linear das conversas em directo das redes sociais. Como o próprio disse “não escrevemos como falamos”, já que “a linguagem escrita pressupõe maior objectividade e uma maior atenção às normas gramaticais”. Além disso, com tantos “episódios” seria normal não ser possível passar todo o conteúdo das conversas para um só livro.

Ao contrário dos diferentes programas em directo, em que o mesmo estava direccionado para os treinadores convidados, e a temática subjacente ao seu domínio, o livro tem uma estruturação orientada para os diferentes tópicos descritos. Ou seja, dentro dos seus 11 capítulos, existem depois diferentes sub-temas que são abordados, estando aí descritos as linhas de pensamento de cada Treinador.

Por exemplo, no Capítulo 2 “Descodificando o Treino”, vários treinadores falam sobre “Exercícios de Treino; Criação de Exercícios; A Importância do Exercício; O Treino como Espelho do Jogo e como Mola e Molde de Comportamentos”.

 

O facto de ficarmos a saber através desta “Quarentena” como pensam e operacionalizam alguns dos melhores treinadores portugueses da actualidade, por si só, já era um facto de leitura obrigatória.

O livro está muito bem estruturado, ajudando o leitor a ter uma fluidez de leitura bastante interessante e conectada sobre as diferentes temáticas.

Por ser um livro em que achamos ser, fundamentalmente, de “Treinadores para Treinadores”, é muito rico e completo, já que toca nos mais diversos pontos de interesse sobre o Jogo e sobre o Treino.

Torna-se ainda mais importante para aqueles treinadores de equipas mais humildes que muitas vezes têm de assumir quase na totalidade os diferentes papéis de uma equipa técnica, sendo por isso e ao mesmo tempo os Treinadores Principais, Treinadores-Adjuntos, Treinadores de Guarda-Redes, Scouts, etc.

No entanto, por questões de proximidade de pensamento e de admiração profissional gostaríamos de ter lido mais vezes ao longo do livro, as ideias do Vítor Matos, Jorge Maciel e Vítor Severino.

 

Mesmo assim, foram vários os pensamentos sublinhados, podendo encher uma dúzia de folhas de citações que nos irão acompanhar nos próximos tempos. Para não sermos demasiadamente maçudos, deixamos aqui três transcrições de pensamentos de três treinadores diferentes.

Sobre o Jogo.

“Agora o orgasmo no Futebol já não é o golo, é a primeira fase de construção. Atingem o orgasmo na primeira fase, para depois, por vezes, passarem aquela pressão e esticarem para a profundidade…” Fernando Valente

Sobre o Treino.

“Num exercício o importante é avaliar o grau de satisfação dos jogadores, e não do treinador. Podemos achar que criamos um excelente exercício, mas se os jogadores não estão satisfeitos a realizá-lo, se não estão a conseguir captar o que queremos daquele exercício para o jogo, então temos que perceber que aquele não é o exercício certo. Porque os jogadores são quem defendem a forma de pensar do seu treinador.” Luís Castro

Sobre a Formação.

“Quando falo de futebol de formação em Portugal relembro sempre os casos do Bernardo Silva e do João Félix. Dois jogadores com um talento extraordinário, ninguém dirá o contrário, mas que tiveram muitas dificuldades em impor-se em algumas fases do seu percurso formativo. Ou seja, suscitaram muitas dúvidas àqueles que foram responsáveis pelo seu percurso de formação. E para mim isso só pode ser visto por um prisma: aquilo que as pessoas queriam não era que aparecesse o Bernardo Silva ou o João Félix que vemos hoje. Queriam sim era ganhar jogos e campeonatos.” José Boto

 

Para além de recomendarmos a sua aquisição e leitura, julgamos que este livro está muito bem elaborado para que todos os treinadores estruturem a sua linha de pensamento sobre as temáticas abordadas.

Ou seja, sugerimos que, através dos diferentes tópicos, criem o seu próprio livro, assentando em papel as ideias que têm sobre o treinador, o treino, sobre o jogo, sobre o treino dos guarda-redes, sobre a análise, o scouting e a identificação de talento, sobre o seu desenvolvimento, sobre a formação e sobre a gestão… a nós tem-nos ajudado imenso.

 

Assim sendo, resta-nos agradecer ao Rémulo e à sua “Quarentena da Bola” por este maravilhoso projecto transcrito para papel. Bem-haja.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Entre-Linhas com Bruno Pereira

Nesta edição do espaço “Entre-Linhas” convidámos o treinador Bruno Pereira, a propósito dos seus artigos que tem escrito na plataforma “Futebol de Formação”. 

Ele tem-se debruçado em temas como o Talento, o seu Desenvolvimento, a sua Identificação, o Futebol de Rua e mais recentemente, a Técnica, que tanto nos interessam ver debatidos e reflectidos. 

Isto tudo, enquanto desempenha as funções de treinador-adjunto na equipa grega Episkopi. 



1. Aquando da abordagem ao tema do Futebol de Rua, falas de “levar a rua para dentro do treino”, onde utilizas as referências ao “local/espaço”, a “autonomia”, as “horas de prática” e a “emotividade”. Ora, mais que lamentar a inevitabilidade do desaparecimento do Futebol de Rua, é urgente trazê-lo para o Treino. Podes explicar-nos melhor como tentas fazê-lo? 

Na minha opinião, o Futebol de Rua, ou melhor a sua essência e o seu espírito (intrinsecamente ligado às “Regras do Futebol de Rua”, mas também ao local/espaço e condições de onde e como era jogado) devem fazer parte do processo de treino, em particular no âmbito do Futebol de Formação. Acredito que pode enriquecer de forma substancial o treino e potenciar o desenvolvimento do Talento. 

Portanto, no processo e operacionalização do treino é necessário assegurar a presença desses quatro “ingredientes”: variabilidade e diversidade da prática, promoção da autonomia, elevado número de horas de prática e ambiente de grande emotividade. 

Neste sentido, procuro que tudo aquilo que se faz valorize o espírito competitivo, isto é, associo sempre competição (“jogar para ganhar”) aos contextos de treino (exercícios) e, consequentemente, apelo à cooperação (mecanismo fundamental nos processos de evolução). Ao fazê-lo sei que vou criar uma atmosfera de elevada emotividade que favorece e fortalece a aprendizagem e apela à paixão, resiliência (antifragilidade), transcendência e superação. 

No que diz respeito à variabilidade e diversidade da prática, recorro a diferentes estratégias relacionadas não só com o local/espaço de jogo, mas também com o tamanho do campo, bem como, com o tipo de bola. Vou utilizar aqui um exemplo (onde associo também os restantes “ingredientes”) para explicar a forma como concretizo estas questões: 

· Torneio Sobe e Desce 3x3 (“x” jogos de “y” tempo; dimensões “C x L” – podem variar de divisão para divisão; quem perde desce, quem ganha sobe; prémio para quem termina em primeiro lugar e castigo para quem termina em último). 

o Campo 1 (1ª Divisão), campo com baliza normal e guarda-redes; jogado no sintético, com bolas de jogo e treinador a repor bolas. 

o Campo 2 (2ª Divisão), campo com mini-baliza e sem guarda-redes; jogado no sintético, com uma única bola de jogo de tamanho inferior. 

o Campo 3 (3ª Divisão), campo com mini-baliza e sem guarda-redes; jogado fora do sintético, com uma única bola e já muito gasta e vazia. 

Nota: esta lógica pode ser aplicada a situações jogadas, bem como, a situações de agilização Técnica, por exemplo, Torneio de Ténis-Fut. 

Para promoção da autonomia, no meu processo de treino não abdico de momentos em que os jogadores possam jogar em “modo selvagem”. No fundo é “jogar à bola”, por exemplo GR+5x5+GR, recorrendo a regras do Futebol de Rua, como por exemplo, jogadores a fazer equipas e jogo em modo “bota-fora” (quem sofre sai). No entanto, para mim é fundamental que a liberdade destes momentos também respeite uma determinada ordem (o jogar), presente implicitamente seja pela estrutura ou por determinadas regras (exemplo: golo de primeira vale 2). 

Por fim, quanto ao número de horas, para mim em primeiro lugar há que rentabilizar e maximizar o tempo de treino. Para tal, aquilo que se faz tem de ser relevante, isto é, o treino de qualidade tem de ser focar no essencial (tem de ser jogo). Em segundo, podem criar-se estratégias para que os jogadores joguem futebol e estejam em contacto com a bola para lá do treino. Nomeadamente, pedir aos jogadores que venham para o treino mais cedo e nesse período deixá-los jogar (aqui também se pode estimular a prática de jogos que também existiam na rua: jogo da parede, jogo dos cruzamentos, “bota-atrás”, bola na barra, ...) e brincar com a bola (mais um momento em que os restantes “ingredientes” aparecem, em particular a autonomia). Também se poderão dar tarefas para casa, como realização de habilidades com bola, em jeito de desafio. 


2. Até onde o Treino e o Jogo que valorizam “a inteligência de jogo e a capacidade táctica” e “a relação do corpo com a bola e a capacidade técnica” andam de mãos dadas? É que parece que é proibido trabalhar a “relação do corpo com a bola” quando se chega ao escalão sénior… 

Na minha opinião, a relacção do corpo com a bola não só pode como deve ter espaço naquilo que é o processo de uma equipa sénior. Os contextos de agilização Técnica têm um papel muito importante, alargando as possibilidades dos jogadores, em termos de adaptabilidade e gestualidade (aumento de graus de liberdade do corpo) e, por sua vez, enriquecendo o jogar da equipa. Em consequência, acredito que o corpo, com maiores graus de liberdade, mais agilizado, sensível e coordenado, estará menos propenso a lesão, ou seja, a equipa terá menor probabilidade de perder jogadores. 

Quanto à questão da Táctica e da Técnica, no meu ponto de vista, a Técnica está sobrecondicionada à Táctica – enquanto dimensão hierarquicamente superior que guia todo o processo e que coordena a dimensão Técnica, bem como as restantes. De tal forma, elas andam necessariamente de mãos dadas, na medida em que é em função do jogar que se aspira, isto é, da intencionalidade (Táctica) que a Técnica se incorpora, se desenvolve e se manifesta. Em resumo, diria que do meu jogar (e treinar) emerge uma determinada Técnica (Específica) – que não é fechada, ela deve estar em aberto e ter abertura para que o jogador possa dar resposta à imprevisibilidade do jogo, sobretudo, em termos de detalhe (plano micro). 


3. Dizes-nos que “segundo Pereira (2014), as crianças e jovens devem tornar-se especialistas no que melhor fazem”. Como poderemos recuperar a “Individualidade” de cada jogador? É que o Processo de Formação (seja desportivo ou académico) parece estar a ser caminhar precisamente para a uniformização em vez da diferenciação, por mais esforço que haja por parte de muitos investigadores… 

Esta é uma questão que nos devia preocupar a todos, enquanto sociedade. 

No Futebol, assistimos a uma contradição: uma procura incessante pelo Talento (jogadores diferenciados), ao mesmo tempo, que os processos de formação/desenvolvimento tendem em grande parte para uniformização. Tendência essa que tem de ser necessariamente contrariada, em toda sociedade, nomeadamente na Escola e no Desporto. 

Neste sentido, em particular no Futebol de Formação, os treinadores no plano conceptual e no plano da concretização, isto é, a ideia de jogo e o processo de treino tem de respeitar a natureza caótica e imprevisível do jogo, sobretudo, no plano micro. Portanto, o treinador tem de perceber que não pode controlar tudo, muito menos controlar o jogo ao nível do detalhe. De tal forma, a ideia de jogo do treinador é concebida em termos de princípios e subprincípios (dinâmicas colectivas), sendo os sub-subprincípios uma emergência do “aqui e agora” (dinamismo da dinâmica) em função daquilo que é a individualidade de cada jogador. No que diz respeito ao treino, o treinador não deve procurar controlar ou definir aquilo que é o seu jogar ao nível do comportamento individual. O Professor Vítor Frade tem uma expressão que ilustra bem esta questão: “O jogador é livre de agir, sem agir livremente”. Portanto, o jogar e o treinar têm de dar espaço à expressão da individualidade, estando sobrecondicionada à intencionalidade Táctica (colectiva) – o todo (macro) tem de estar sempre presente. Se assim não for, isto é, se o colectivo não estiver a priori facilmente caímos no individualismo (outro problema da nossa sociedade). 

Na minha opinião, o jogar (e o treinar) de qualidade tem de ser manifestamente colectivo, dando espaço à expressão e potenciando a individualidade e acredito que assim poderemos ajudar a contrair estas duas tendências: uniformização e individualismo.


4. Citando Barreira (2020) num outro artigo teu, “O jogador para ser identificado tem de ser desenvolvido previamente.” Por mais que gostemos da área da “Identificação do Talento”, tendo mesmo até já desempenhado essas funções, não achas que estamos a ir pela sobrevalorização desta área em detrimento da área do “Desenvolvimento do Talento”? 

No meu ponto de vista, no Futebol de Formação o foco tem de se orientar para o Desenvolvimento do Talento e, por isso, a grande preocupação dos clubes deve ser a de aumentar a qualidade do seu processo. O que não invalida que o clube invista na Identificação do Talento (e no Selecção do Talento, porque tal também contribui para a melhoria da qualidade do processo). Porém a fiabilidade da identificação será tanto maior quanto mais tarde ocorrer, porque o processo de Desenvolvimento do Talento é longo e não linear. 

Aquilo que sinto é que os clubes muitas vezes não dão tempo aos jogadores de se desenvolverem, de confirmarem e de expressarem o seu potencial. Isto porque já há outros jogadores identificados que naquele momento já têm um rendimento mais elevado – tendência para “ver ao perto”. No entanto, por vezes, anos mais tarde, o jogador que tinha saído desse clube acabou por crescer noutro contexto e confirmar o seu potencial e aquele que veio substitui-lo acabou, eventualmente, também por ser substituído e não atingiu o potencial que o seu rendimento parecia indicar. 


Sei que acompanhaste o Documentário da RTP, “Deus Cérebro”. Esta questão acaba por ser um reflexo daquilo que os neurocientistas diziam: estamos reféns do hemisfério esquerdo (foca-se no detalhe, na informação mais próxima em termos espaciais e temporais) e parece que temos uma lesão no hemisfério direito (permite-nos compreender o Mundo e ter uma visão ampla no tempo e no espaço). É urgente equilibrar estes dois “mundos”. 


5. Por mais que uma vez falas na “regra das 10.000 horas”. Ao mesmo tempo que assistimos a uma “Vertigem da Pressa” na procura de sucesso imediato por alguns miúdos (e por as pessoas que os rodeiam), vemos alguns veteranos a darem verdadeiras lições de compromisso, disciplina e determinação através da forma como Treinam e Jogam… Até que ponto é perigoso para a Formação de um jovem jogador, esta “Vertigem da Pressa”? 

Ora, é um pouco aquilo que já indicava na resposta anterior... Há que ter paciência, porque o processo é longo e não linear. 

A “Vertigem da Pressa”, tal como a tendência de uniformização e o individualismo são problemas sociais. Hoje quer-se tudo imediato, instantâneo. No Futebol vemos isso no próprio jogo e no processo de formação. 

Na minha opinião, como diriam os antigos “a pressa é inimiga da perfeição” e no que diz respeito ao Talento e ao seu desenvolvimento, diversos autores em diferentes áreas já demonstraram que para se atingir a excelência (Futebol de Alto de Rendimento) é necessário cumprir a “regra das 10 mil horas” ou a “regras dos 10 anos”. Só mediante o acumular deste número de horas de prática se pode aspirar aos patamares de rendimento elevados. Mas tem de ser prática de qualidade! Por isso, a “Vertigem da Pressa” no jogo (e no treino) em nada contribuem para o Desenvolvimento Talento – processo que tem necessariamente de fugir à pressa, há que dar tempo para os jogadores se desenvolverem e há que entender que este processo não vai ser sempre a subir, vai ter altos e baixos. Nos altos há que ter cautela para não cair no endeusamento (pode ser em causa o futuro) e nos baixos há que ter sensibilidade para entender a razão e para perceber que esse baixo pode vir a tornar-se um impulsionador para o futuro desenvolvimento.


6. Abordas o versículo do Evangelho de S. Mateus: “Porque àquele que tem, mais lhe será dado, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.” Parafraseando-te “Em termos práticos verifica-se que os jogadores selecionados são expostos a processos de treino de maior qualidade e têm oportunidade de competir em contextos de nível mais elevado. Em sentido oposto, os jogadores não selecionados têm acesso a processos de treino de menor qualidade e a competições de menor exigência.” Em que medida, Treinar e Jogar com os melhores potencia um desenvolvimento mais eficaz dos jogadores? É que esta “regra” poderá ir muito para além do Efeito da Idade Relativa, passando, por exemplo, pelo contexto geográfico de desenvolvimento… 

Novamente entra aqui a questão de se tratar de um processo longo e não linear... 

Frequentemente, a Identificação e Selecção do Talento é contaminada por aquilo que é o rendimento no momento do jogador, o que leva os clubes a recrutarem os melhores e não necessariamente aqueles com mais potencial. De tal forma, tendem-se a dar mais e melhores oportunidades a alguns jogadores e prejudicando-se outros... Por isso subescrevo o Professor Daniel Barreira: previamente à Identificação e Selecção tem de estar o Desenvolvimento, só assim asseguramos uma maior fiabilidade do processo. 

Quanto à questão, a minha opinião é que treinar e jogar com os melhores potencia o desenvolvimento dos jogadores. Agora, aquilo que me parece é que os clubes ao querem ter todos os melhores dentro do seu processo leva a que haja uma perda de qualidade nos outros clubes (que por sua vez também irão perder qualidade no seu processo de formação), ou seja, o nível de treino pode aumentar no clube que recruta, mas o nível das equipas que se irá defrontar ficará diminuído pela perda dos seus melhores jogadores. 

Concretamente ao contexto geográfico, parece-me que pode ser importante para o Futebol Português criarem-se regras que limitem a área de recrutamento dos clubes, pelo menos até uma determinada idade. Ao mesmo tempo que se devem dar maiores apoios aos clubes de regiões interiores e das periferias no sentido dos mesmos terem capacidade para ter melhores profissionais, nomeadamente treinadores e em situações não precárias. 


7. Em relação ao processo de treino da sub-dimensão mais técnica, consideras que o mesmo deve ser operacionalizado numa perspectiva mais integrada ou numa perspectiva mais complementar? 

O Professor Vítor Frade diz-nos que o “O Futebol não se ensina, aprende-se.” Nesse sentido, considero que o desenvolvimento da Técnica (Específica) deve acontecer, fundamentalmente, pela vivenciação do jogo (do jogar da equipa). Sendo que o treino tem de ser jogo. 

Todavia, como já referi, os contextos de agilização Técnica também devem ter espaço no processo de treino enquanto momentos potenciadores da Técnica (devem também ser “jogo”) – relacção do corpo com a bola (sensibilidade e habilidade motora) e gestualidade. Sendo que podem surgir antes ou depois do treino, na parte inicial do treino e até na parte fundamental, por exemplo, no treino de recuperação. No entanto, para mim, não são momentos complementares, são fundamentais, porque visam o enriquecimento do meu jogar e dos meus jogadores. 


8. Tens a mesma opinião num contexto de exigência de nível mais regional, onde o tempo/espaço aquisitivo da sub-dimensão estratégica é menor e a emergência do “individual” sobrepõe-se muitas vezes sobre o “colectivo”? 

Na minha opinião, a essência do processo é a mesma. Seja num clube de formação de dimensão nacional ou numa academia local, num clube profissional ou numa distrital de séniores o processo deve aspirar o desenvolvimento de um jogar (colectivo). De tal forma, nada se sobrepõe ao jogar (entenda-se Dimensão Táctica), porque é em função dele que a equipa e os jogadores (individual) se desenvolvem (nas dimensões Técnica, Física, Psicológica e Estratégica). 

Pessoalmente, recordando as experiências pelas quais passei, com os devidos ajustes face aos diferentes contextos e comtemplando aquilo que também foi/é o meu processo de crescimento, os processos sempre obedeceram a uma determinada forma se ser, a um determinado sentir e a um determinado saber.


9. Como periodizas em termos de conteúdo o Processo de Treino do “Desenvolvimento Individual” para uma época desportiva? Infelizmente não encontramos muita informação sobre essa matéria, sendo este “tipo” de treino muitas vezes tratado de forma muito aleatória… 

Dentro daquilo que é o processo de treino da equipa, como disse anteriormente, aquilo que guia, direcciona e coordena o desenvolvimento individual é o jogar a que se aspira. É em função desse jogar (colectivo) que se têm determinadas preocupações no sentido de potenciar os jogadores. 

Atualmente, os clubes possuem departamentos dedicados ao desenvolvimento individual, sendo que na minha opinião, também neste âmbito aquilo que orienta o processo deve ser a forma de jogar da equipa (pode ou não ser transversal ao clube). O Vítor Matos, adjunto no Liverpool, recentemente referiu que uma determinada ideia de jogo, força um determinado desenvolvimento individual. Pelo que, aquilo que se faz em termos individuais tem de fazer sentido para o colectivo e mais que isso tem de contribuir para o crescimento colectivo e, claro, individual. 

No que diz respeito às escolas de treino individual, externas e independentes aos clubes, parece-me que há algumas questões importantes. Em primeiro, os responsáveis devem perceber junto dos jogadores ou até dos treinadores aquilo que são as suas ideias para que o processo de treino individual se possa alinhar com aquilo que é o colectivo. Depois, estas entidades devem desenvolver um trabalho no sentido de perceber que competências são transversais aos jogadores de alto nível e procurar desenvolvê-las. 

Porém, na minha opinião, a lógica deve ser a de fazer aprender, mais do que ensinar. De tal forma, tudo tem de ser jogo, no sentido, em que são situações com abertura e imprevisibilidade. Assim, também o processo se afastará de uma lógica de ensino “por gavetas”, no sentido em que não há uma periodização prévia de conteúdos, isto é, hoje “isto”, amanhã “aquilo” e para a semana “aqueloutro”. O processo é que nos vai levando a hierarquizar e definir determinadas prioridades. 


10. Por mais contraditório que possa parecer, olhamos para o Treino de “Desenvolvimento Individual” com uma necessidade muito grande de decorrer com adversários e colegas de equipa, para assim poder acolher a dimensão Complexa, Sistémica e Caótica que o Jogo oferece… Logicamente, admitimos e utilizamos até contextos mais “fechados” dentro desse treino, mas sem nunca esquecer, pelo menos uma destas dimensões. Concordas? 

No meu entendimento é fundamental que o processo de treino de Desenvolvimento Individual respeite aquilo que é o jogo, pelo que é necessária uma visão sistémica e complexa de forma a que o treino seja representativo do caos e imprevisibilidade associada ao jogo. 

Portanto, eu prefiro ir pelo Treino Individual por pequenos grupos e não pelo Treino Individualizado, porque no Treino Individual consigo criar contextos representativos do jogo, enquanto que no Treino Individualizado fico sempre aquém daquilo que é o jogo... Os contextos tornam-se mais fechados e analíticos. Ainda assim, neste âmbito individualizado procuro criar contextos que impliquem abertura, imprevisibilidade... O treino aqui é muito direcionado para a relacção do corpo com a bola (habilidade motora e sensibilidade), para o desenvolvimento da gestualidade (e adaptabilidade) e para o refinamento das acções táctico-técnicas – recaindo o foco sobre a precisão e eficácia, mais do que no “gesto técnico” (em termos biomecânicos), só assim poderemos respeitar aquilo que é o jogador (Corpo), na sua individualidade. 


11. Na mesma altura em que “choramos” pela ausência de um maior grau de Criatividade no Futebol, os treinadores de formação em Portugal vêem-se castrados de oferecer aos miúdos um processo rico desse ponto de vista. As restrições e os constrangimentos causados pela pandemia são tantos, que já chegámos a uma altura onde esses treinadores estejam a treinar tudo menos Futebol… Que prática é possível proporcionar ao longo de uma época inteira na Formação, respeitando, por exemplo, o distanciamento obrigatório entre jogadores? 

Esta questão tem muito a ver com aquilo que respondi anteriormente... 

A minha experiência profissional relacionada com o treino em pandemia levou-me a criar treinos para os jogadores realizarem em casa e numa outra fase passei pela situação de treinos em grupo. Na primeira situação, aquilo que me parece ser importante é procurar dar aos jogadores propostas que contrariam a tendência deste momento para “fechar” (porque não há jogo). Nesse sentido, devem se propor as mais diversas e variáveis situações de agilização Técnica e aqui os treinadores têm de ser altamente criativos. Depois em termos Físicos é importante que se façam coisas que respeitem aquilo que é o padrão de solicitação e implicação muscular (gestualidade e adaptabilidade). 

No âmbito do treino por grupos, não vivenciei essa restrição de distanciamento obrigatório. Ainda assim, nessa situação (muito difícil e que realmente de Futebol pode ter muito pouco) parece-me que se podem recorrer a diferentes contextos de agilização Técnica, no sentido de desenvolver a relacção do corpo com a bola (habilidade motora e sensibilidade), a gestualidade (e adaptabilidade) e de refinar das acções táctico-técnicas. Esses contextos podem ser desde os mais fechados, analíticos e individuais, como os toques de sustentação, as habilidades com bola e os gestos técnicos, até aos mais abertos, como por exemplo, jogo baliza-a-baliza ou o Ténis-Fut. 

Outra abordagem que pode ser pertinente e benéfico é os treinadores criarem tarefas relacionadas com a visualização e análise de jogos e de jogadores. Os mais novos podem ser incentivados a ver as suas equipas preferidas e os seus ídolos, no sentido de terem referências sobre aquilo que é o jogo de alto nível e de terem modelos para “copiar”. Os mais velhos podem ser estimulados a ver determinadas equipas a jogar (importante que vejam o jogo todo e não apenas resumos) e a analisarem essas mesmas equipas, questões colectivas e individuais. 

Finalizando, parece-me muitíssimo importante, para o País, para a Sociedade, para o Desporto e para o Futebol que o Futebol de Formação (e também o Futebol Amador!) possam voltar a treinar com normalidade (urgentemente)! Estamos a colocar em causa o futuro de milhares de crianças e jovens e o seu desenvolvimento integral e, consequentemente, o futuro de Portugal.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Os americanos já sabem jogar o nosso Futebol - um XI que muito promete!

 

Se há países no Mundo onde o Futebol parece estar a ser muito bem desenvolvido, por incrível que parece, são os Estados Unidos da América um dos principais países que nos vêm à cabeça.

Dois grandes factores parecem ter sido cruciais para a melhoria dos jovens jogadores norte-americanos: melhoria da qualidade do Processo de Formação em idade mais precoce; e o salto para determinados clubes europeus para aprimorar e dar competitividade aos jovens talentos americanos em fase mais adiantada da Formação.

Em resultado disso surge-nos uma geração fantástica de jogadores norte-americanos, a qual arriscamo-nos mesmo a dizer que será das melhores gerações a nível mundial.

Por aqui preparámos uma Selecção Sub23 de XI jogadores norte-americanos, tendo deixado de parte nomes como Konrad de la Fuente do Barcelona, Yunus Musah do Valência, Brenden Aaronson do Red Bull Salzburgo, Caden Clark do Red Bull New York ou Owen Otasowie do Wolverhampton…

Mesmo assim, chega para ser competitiva, não!?




quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Entre-Linhas com Pedro Teles

 

De regresso com as nossas conversas, “visitamos” desta vez a Inglaterra, e o scout Pedro Teles. Conhecemos o Pedro através das redes sociais onde lhe pedimos para ele partilhar um pouco daquilo que é o Futebol onde tudo começou, tocando em variadíssimos pontos que achamos de interesse.

O Pedro tem 32 anos, é natural da Guarda e conta com formação base na área da saúde. Tem o sonho de se tornar scout no futebol profissional e tendo focado grande parte do seu tempo livre em estudar e analisar o jogo de futebol e os seus intervenientes.

Trabalhou com o Mansfield Town da League 2 e além disso tem tido mais trabalho com empresas de recrutamento e consultadoria de agentes em Inglaterra e Dinamarca, mas nada profissional.

Começou por se focar em scouting colectivo - do "próximo adversário" mas ultimamente tem tido um grande prazer em trabalhar na área da identificação de talento.

1.    Em primeiro lugar há algo de superior que queremos muito entender que nos causa alguma confusão: os Quadros Competitivos ingleses. Podes-nos falar sobre eles e explicar-nos a diferença em relação aos os nossos?

 Em geral, a maior diferença dos quadros competitivos passa pelo maior numero de escalões profissionais. O futebol profissional vai desde a Premier League – Championship – League One e League Two e depois existe a National League e a National League Conference Norte e Sul que são as 5ª e 6ª divisões mas já semi profissionais. Abaixo dessas ainda existem a Isthmian League e a Isthmian “Regional” mas já são de futebol amador. E por fim cada região tem as suas taças locais e regionais. O investimento e a dimensão dos clubes, comparativamente às ligas portuguesas é incrível.

Depois o futebol jovem tem a Premier League 2 – Sub 23 e a Premier League Sub 21, além dos campeonatos Junior, Juvenis, etc. A EFL ainda organiza a Taça e Taça da Liga e depois há torneios como a Vase Cup ou EFL Trophy onde jogam equipas de Sub 21 com equipas da League 1 e 2. Em geral à uma grande variedade de competições e uma exposição ao futebol profissional maior para as equipas e jogadores mais jovens. Não sei se respondi à vossa pergunta!!

 

2.    E nos escalões mais baixos e de iniciação. Também é uma estrutura idêntica a Portugal, com as competições fundamentalmente regionais? 

Sim. Do meu conhecimento qualquer pequena associação ou colectividade ficam registadas na Federação e ganham o estatuto de Charter Standard Club e ficam habilitados a jogar desde que cumpram certos requisitos. As competições estão organizadas essencialmente a nível local e regional e com selecções regionais de todos os escalões também. 

 

3.    Sobre os mais novos… Qual a tua opinião sobre a equipa de elite dos Sub5 do Manchester City? Não se estará a exagerar com o grau de exigência? Não estará a Inglaterra a tentar ser “profissional” de mais?

Creio que não. A ideia base é fomentar o “divertimento” em futebol e não criar a ideia de estrutura profissional, contudo simular esse ambiente em torno dos jovens: equipamentos, tecnologia, treino e treinadores competentes. Esse jovens são permitidos a jogar em outros clubes e na escola, etc, mas simultaneamente serem expostos a uma estrutura profissional. Outro dos aspectos mais importantes é a educação dos pais/ educadores em torno dos jogadores. Veremos quais os resultados destes métodos nos próximos anos.

4.    Já sobre os escalões mais velhos de formação… Nas tais competições da FA que falaste, em que equipas de Sub21 de clubes da Premier competem com clubes da League 1 e League 2 temos visto que essas equipas Sub21 são muitas vezes limitadas a nível individual e colectivo... Fará sentido os clubes terem estas equipas se não as valorizam?

Tal como em Portugal existem equipas juniores, B, Sub 23. Creio que faz sentido manter estas equipas uma vez que há espaço para todos evoluírem de uma forma e ritmos diferentes. Há jovens de 16 anos nas equipas séniores e outros com 20, 23 que mostram dificuldades em apresentar-se a um nível mais elevado. Estas diferentes competições permitem aos clubes manter os seus talentos e faze-los desenvolver conforme o seu nível individual. Contudo há dois aspectos com os quais não concordo:

- Equipas que têm dezenas de jogadores e mante-los em equipas de desenvolvimento ou empréstimos constantes (Chelsea, Arsenal) sem nunca os apoiar na direcção do plantel principal;

- Apesar de compreender a necessidade de unificar a estrutura de treino do clube para preparar os jovens para a realidade da equipa sénior, raramente existe uma estrutura no clube (conforme existe no Barcelona) e estas equipas acabam por ser formatadas para irem de encontro ao que o treinador principal pretende e tudo volta praticamente ao zero assim que há mudanças na equipa técnica.

Vi recentemente um jogo de Sub-23 entre um clube da Premier League e da Bundesliga e a diferença é gritante, entre o formatar os jogadores para o futebol sénior do momento actual da equipa e o foco no desenvolvimento do jovem jogador e dos princípios de jogo.

 

5.    Passando para o Treino na Formação, um estudo recente da Barça Innovation Hub indicou algumas diferenças metodológicas Inglaterra e Portugal. Nomeadamente no que diz respeito aos exercícios que recrutam a tomada de decisão de uma forma passiva (mais em Inglaterra), ou activa (mais em Portugal). O Treino na Formação é assim tão diferente entre os dois países?

Não tenho conhecimento da realidade de treino em Portugal, mas pela minha curta experiencia de treino aqui, julgo que há verdadeiramente uma cultura de decisão passiva e limitação de desenvolvimento dos jogadores em formação. Infelizmente ainda há muitos treinadores que baseiam as suas sessões em treinos de repetição e drills para colocar o jogador em situações de desenvolvimento técnico contudo bastante longe da realidade competitiva. Retiram toda a imaginação e capacidade de decisão e de jogo em contexto real, colocando os jovens a rematar a baliza ou a fintar barreiras sem os incluir na tomada de decisão para alem da direcção do remate ou do drible.

 

6.    Em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol está a começar a implementar o Processo de Certificação de Entidades Formadoras de Futebol. Em Inglaterra algo de parecido já funciona há alguns anos com as chamadas “Categorias”, certo!?

 

Sim, a FA “obrigou” os clubes que estão patenteados na federação a ter os seus treinadores todos certificados pela federação e os clubes têm certificados de entidades formadoras e pessoal especifico que trabalha na área do desenvolvimento pessoal e criam formação dentro dos clubes para manter todo o staff técnico actualizado. Além disso a FA criou o Elite Player’s Perfromance Plan (EPPP) para criar standards e categorias de academia (Sub 9 até Sub 23). E as academias são categorizadas entre nível 1 e 4 (melhor para menos bom) dependendo das infra-estruturas, do investimento dos clubes, da formação dada aos jovens e apoio técnico do clube, etc.

 

7.    Há tempos lemos um artigo onde falava na quantidade absurda de jogadores oriundos da zona de Londres que jogam ao mais alto nível europeu. O que faz deste nicho ecológico ser uma das regiões do Mundo com maior número de craques por metro quadrado?

 

Não tenho noção exacta dos dados mas certamente que há imenso talento a nascer na região de Londres. É uma área gigantesca, com imensos clubes de futebol e muitos deles com academias de qualidade e redes de recrutamento de muito bom nível. Dependendo no nível da tua academia, podes ser autorizado a contratar jogadores jovens numa rede geográfica maior e trazer o melhor talento para Londres. Além disso é como transferir para a realidade portuguesa, a dimensão de lisboa e toda a margem sul e região urbana. Há clubes em cada esquina, olheiros, centros de treino e então há identificação de talento muito maior. Além disso há uma enorme multiculturalidade e paixão pelo futebol, então muitos dos clubes com maior capacidade, desenvolvem programas na comunidade e têm treinadores nas escolas e em bairros a desenvolver jovens dentro do futebol o que leva a que surjam mais jovens talentosos nessa zona. E pelo que tenho encontrado em conversas, há também muitos treinadores experientes ou consultores/ agentes que criam centros de formação/ academias que funcionam como fábricas de jogadores e que preparam jovens para trials em clubes maiores quando estiverem dentro da idade para assinarem contratos profissionais. Há mais olheiros, mais agentes, mais futebol. Tudo isto leva a que haja mais probabilidade de encontrar talento do que em zonas mais pequenas. O Norte – Manchester, Liverpool, Birmingham são excelentes centros também.

 

8.    Vários jogadores portugueses contam com formação inglesa no seu currículo: Ruben Lameiras (Famalicão), Fábio Abreu (Al-Batin), Ronaldo Vieira (Hellas Verona), Leonardo Lopes (Cercle Brugge), Tiago Augusto (Sporting Sub19) são alguns exemplos de jogadores que passaram pelo contexto formativo inglês, e que embora não fossem muito mediáticos, alcançaram níveis competitivos interessantes...  Há outros exemplos de jovens jogadores portugueses que podem vir a chegar a um bom patamar nas próximas épocas?

 

Sem dúvida. O futebol português e acima de tudo a formação, são bastante reconhecidos aqui em Inglaterra. O mediatismo dos trabalhos do Nuno Espirito Santo, do José Gomes no Reading, Carvalhal no Sheffield, trouxeram muita atenção à qualidade do treino em Portugal. Depois todos os jogadores que referiram e os jogadores mais velhos como o Lucas João e a equipa do Wolverhampton levaram a que o jogador português e a aposta no jovem português faça sentido pelo nível de maturidade e qualidade que temos. O Domingos Quina fez a formação quase toda em clubes da Premier League e está agora no Watford, Gonçalo Cardoso está no West Ham, João Virginia do Everton e o Fábio Silva e o Vitinha são outros exemplos de jogadores que estão a terminar a sua formação por aqui.

 

9.    É interessante que alguns deles até passaram por equipas mais humildes… o que nos leva a inferir que em Inglaterra, na dualidade Treino/Competição, é muito mais a vertente a competitiva que provoca um maior desenvolvimento dos jovens jogadores, do que a qualidade do processo competitivo... Estaremos certos!?

 

Sim. É um pouco difícil compreender essa situação. É mais uma questão clube a clube. De uma forma geral, como referi noutra questão, os jogadores são expostos a uma vertente competitiva muito maior. Há jovens de 17/18 anos com presenças regulares nas League 1 e até no Championship – ligas profissionais e bastante competitivas (uns por aposta na formação, outros por necessidades financeiras). Mesmo equipas de topo, por vezes utilizam bastantes jogadores Sub 20 em jogos de taça, sem qualquer problema. E há sempre a EFL Trophy onde jogam Sub 21 contra equipas seniores. Além disso os clubes apostam de forma diferente nas suas academias e há clubes da League 2 com academias de categoria 2, ao nível ou melhor que clubes da Premier League. Por outro lado, muitos clubes, principalmente os de topo, têm exigências competitivas maiores e muitas vezes focam-se nos títulos e não no processo de desenvolvimento e há imensos jogadores que vão saindo das academias apesar de serem muito talentosos e acabam a jogar em outros ligas ou países.

 

10. Será devido a essa grande competitividade que conhecemos tantos exemplos de jogadores ingleses que vieram ou passaram pelo "fundo" em Inglaterra, como Vardy ou Mings? Em Portugal isso é quase impossível…

Julgo que estes casos tem uma explicação simples. Por um lado ha um mercado interno muito forte e uma grande aceitação de meritocracia: Independentemente da idade ou do currículo, se és o melhor marcador da quarta divisão ou um jogador que mostra um conjunto de qualidades pouco comuns, alguém vai analisar o jogador em todas as suas vertentes e tentar promove-lo a um escalão superior ou a uma equipa melhor. Alem disso, apesar das evidentes diferenças entre divisões, há sempre um grande nível de competitividade e intensidade o que faz com que para muitos jogadores, a transferência de competências entre ligas seja muito fácil. Em Portugal isso não parece acontecer e só mais recentemente jogadores do CP tem sido contratados para a Liga 2 e até para a Primeira Liga.

Penso também que a forte cultura futebolística, do amor ao clube local e do investimento no futebol semi profissional alicerça este desenvolvimento. Vários departamentos de scouting começam a expandir-se em pequenas unidades regionais e assim fica mais fácil encontrar alguns destes casos de grandes jogadores em clubes de menor dimensão. Mas nem todos são Vardys e Mings e há muito a  melhorar para que mais jovem continuem em busca da sua oportunidade e de continuarem a sua carreira no futebol.

 

11. Ainda sobre a particularidade dos jogadores ingleses nos oferecem… Muito se tem lamentado no Futebol mundial o desaparecimento de jogadores da posição 10. Contrariando por completo essa "verdade absoluta" é talvez a Inglaterra o país que mais jogadores desse perfil tem no alto nível. Alli, Mount, Maddison, até mesmo Grealish poderá desempenhar essas funções... A Inglaterra não é propriamente conhecida por ser uma fonte de criatividade futebolística, certo?

 

O menor numero de jogadores “10” parece ser um problema global e a Inglaterra nunca foi nem um mercado produtor de grandes talentos, nem “produtor” de jogadores propriamente criativos e tecnicamente perfeitos (com excepções claro). Os ultimos 5-10 anos tem mostrado uma realidade diferente, com a Inglaterra a conquistar titulos no futebol de formação e não só a colocar jovens talentos em grandes ligas, como a utilizar algum desse talento no mercado interno (por opção ou por necessidade financeira). O surgimento de um grande numero de jogadores mais criativos, tem a meu ver, base na mudança de trabalho feita pela FA nos últimos anos ao nível da formação de treinadores (1) e também dos diferentes treinadores que chegaram aos campeonatos Ingleses (2). (1) – nos cursos que fiz, a ideia base é que os jogadores sejam mais livres e mais responsáveis por tomarem decisão em contexto de jogo. Os exercícios de treino focam-se mais em simular situações de jogo e deixar os jovens escolher como jogar e como resolver problemas em vez de treinarem apenas e só as ideias da equipa técnica. (2) – A multiculturalidade chegou aos treinadores e alguns deles marcaram a forma de jogar e organizar tacticamente e estruturalmente as equipas como Klopp ou Guradiola. Outros tentando “imitar” estes exemplos levam a que muitos dos jogadores se tentem adaptar a estes princípios de jogo e acabem por criar esta nova geração de médios criativos que parece estar a trazer bons resultados para o futebol Inglês e para as suas equipas nas diferentes ligas.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 23 de junho de 2020

E se o Covid-19 nos obrigasse a comprar bom, barato e português?


Em tempos de Pandemia Covid-19, muito se tem falado na procura do consumo do produto local como forma de tentar ajudar a economia a recuperar de uma forma mais sustentável. 

Nesse sentido, e puxando para o Futebol, tentámos desafiar o nosso amigo Daniel Soares a fazer um XI repleto de Talento português, mostrando dessa forma a qualidade do nosso produto local.

Desafiámos o Daniel, por ser alguém que reconhecemos Talento na busca pelo Talento, contando com um currículo interessante ao nível do Scouting, com passagem pelo FC Porto, estando neste momento nos quadros de prospecção do SL Benfica.

Para além da nacionalidade, e para tornar o desafio um pouco mais acessível a clubes mais humildes, quisemos propor ao Daniel um budget total de 6M€, baseado nos valores de mercado da plataforma Transfermarkt.

As escolhas dele foram as seguintes:




Guarda-Redes - João Virgínia
Valor de Mercado: 150mil €
10/10/1999
Local de Nascimento: Faro
Altura: 1,92m

Alto, com forte presença na baliza e muito concentrado em todos os momentos do jogo.

O futebolista fez parte da formação no Benfica, até aos sub-17, antes de se transferir em 2015/16 para os juniores do Arsenal, onde permaneceu até ao verão de 2018, data em que saiu para o Everton como uma futura aposta do clube na Premier League. No entanto e após presenças na equipa de sub-23 dos Tofees, os responsáveis do clube acharam que o empréstimo a uma equipa mais pequena seria a solução para que o jovem guarda-redes pudesse evoluir e assim estrear-se na principal liga inglesa.

As coisas não correram de feição nos apenas 2 jogos realizados e desde então não foi mais aposta. Regressará ao Everton para realizar pré-época e espera-se que se consiga impor rapidamente como sénior. Muita margem de progressão e qualidade entre e fora dos postes. Na seleção portuguesa, esteve no Mundial de futebol de sub-20, em 2019, e no Europeu de sub-19, em 2018, e já no último ano foi chamado aos sub-21.


Defesa-Esquerdo – Pedro Amaral
Valor de mercado – 500mil€
25/08/1997
Altura: 1,78 m

Lateral rápido, com capacidade técnica, jogo ofensivo de salientar e posicionamento defensivo são as suas principais características.

Formado no Benfica, não chegou à equipa principal das águias, alinhou na equipa B, sendo ainda emprestado aos gregos do Panetolikos.


O atleta, que tem como ídolo Cristiano Ronaldo, confessou que um dos objetivos de carreira é chegar à seleção nacional A e voltar ao Benfica. Sente também curiosidade em experimentar a Liga Espanhola pela sua competitividade.


Defesa-Central – Frederico Venâncio
Valor de mercado: 800mil €
04/02/1993
Local de Nascimento: Setúbal
Altura: 1,86m

Filho do antigo jogador do Sporting Venâncio, Frederico é um defesa-central que se destaca pela presença física, jogo aéreo, posicionamento e desarme.

Iniciou a sua formação no Vitória de Setúbal, clube que representou em sénior também, com passagem pela “cantera” do Benfica, também se aventurou por terras de sua majestade, mais concretamente no Sheffield Wednesday onde permaneceu uma época antes de regressar a Portugal no inicio da época 19/20 para representar o Vitória de Guimarães.

Internacional sub-20 e sub-21 por Portugal.


Defesa-Central – Nelson Monte
Valor de Mercado: 1M
30/07/1995
Local de Nascimento:  Vila do Conde
Altura: 1,87 m


Defesa-central alto, forte no jogo aéreo, qualidade na 1ª fase de construção e agressivo defensivamente, também pode actuar como lateral-direito devido à sua boa relação com a bola. Impetuoso e autoritário, os anos que já leva de clube vila condense fazem dele um dos capitães de equipa, sendo bastante respeitado pelos companheiros de equipa.

Iniciou a sua formação no Rio Ave, deu o salto para a cantera do Benfica no escalão de sub-15 onde permaneceu até aos sub-17, por essa altura regressou ao Rio Ave e foi lá que se estreou como sénior no principal escalão português.
Internacional sub-19 e sub-20 por Portugal.

Defesa-Direito – Fernando Fonseca

Valor de mercado – 650mil€
14/03/1997
Local de Nascimento: Porto
Altura: 1,83 m

Lateral-direito ofensivo, com grande capacidade aeróbia, capacidade técnica, forte ofensivamente e agressivo defensivamente. Destaca-se também pela qualidade de cruzamento.

Formado nas escolas do Dragão e do Boavista, estreou-se na 1ª equipa na época de 2016/2017, entretanto conta já com empréstimos a Estoril e assinou esta época pelo Gil Vicente onde já realizou cerca de 20 jogos na 1ª Liga. Pelo meio já tinha sido associado a uma possível transferência para integrar os sub-23 da Juventus mas a mesma acabou por não acontecer.

Internacional pelas selecções jovens de Portugal, integrou também a equipa Olímpica Portuguesa de Futebol.

Médio Defensivo - Sérgio Marakis
Valor de mercado: Livre
11/11/1991
Local de Nascimento: Johannesburg (África do Sul)
Altura: 1,80 m

Médio-Defensivo com forte sentido posicional, agressivo defensivamente, recuperador de bola nato, qualidade de passe médio/longo, é o jogador que todo o treinador tem de possuir num plantel.

Formado nas escolas do Marítimo, com passagem na formação do Sporting CP, estreou-se como sénior na formação insular. Passou por Portimonense, Ermis, União da Madeira, Nacional da Madeira e mais recentemente pertenceu aos quadros do Cova da Piedade.



Médio Centro - Daniel Bragança
Valor de Mercado: 400mil€
27/05/1999
Local de Nascimento: Almeirim
Altura: 1,69 m

O típico nº10, pé esquerdo fabuloso, capacidade técnica, fantasia, dotado de uma visão de jogo e tomada de decisão de salientar no último terço do terreno.

Necessita de melhorar o seu jogo defensivo para se tornar um jogador mais completo e preparado para outros palcos. Qualidade não lhe falta.

Fez a sua formação no Sporting e encontra-se neste momento emprestado ao Estoril onde tem demonstrado futebol suficiente para ser aposta na 1ª Liga.

Médio-Centro – João Carlos Teixeira
Valor de Mercado: 700mil€
18/01/1993
Local de Nascimento: Braga
Altura: 1,77 m


Médio de cariz ofensivo, dotado de uma forte componente criativa no seu jogo, capacidade técnica e qualidade de passe.

Formado no Sporting, complementou a sua formação no Liverpool onde foi treinado por Jurgen Klopp. Sucederam-se empréstimos a Brentford e Brighton, acabando por ser o FC Porto a garantir os seus préstimos com o objectivo de contar nas suas fileiras com um dos mais promissores médio portugueses. Nunca se conseguiu impor no clube da Invicta, apesar de se ter sagrado campeão nacional pela mão de Sérgio Conceição. Foi emprestado ao Braga e devido às suas boas exibições o Vitória de Guimarães, grande rival minhoto do clube bracarense resolveu avançar para a sua contratação em definitivo.

Esta época, aos 27 anos, está finalmente a demonstrar todo o seu talento e tem sido um dos principais municiadores do jogo ofensivo vimaranense.

Internacional por Portugal em todos os escalões de formação.


Extremo Esquerdo – Rochinha
Valor de Mercado: 1M
03/05/1995
Local de nascimento:  Espinho
Altura: 1,69 m

Extremo rápido e desequilibrador, forte no 1x1 , remate de meia distância e capacidade de finalização.

Formação rica, começou no FC Porto, teve passagens pelo Benfica e pelo Feirense. Como sénior integrou a equipa B dos encarnados, Bolton e Standard Liege, rumou em 2017 ao Boavista a titulo definitivo e no mercado de janeiro da época 2018/2019 foi adquirido pelo Vitória de Guimarães onde também de pode estrear em competições europeias.

Internacional pelas camadas jovens de Portugal.


Extremo-Direito – Fábio Vieira
Valor de Mercado: 600mil €
20/05/2000
Local de Nascimento: Santa Maria da Feira
Altura: 1,70 m

Médio de cariz ofensivo, dotado de uma forte componente criativa no seu jogo, capacidade técnica e qualidade de passe. Pé esquerdo notável, coloca a bola onde os seus olhos miram, é descaído na faixa direita que se destaca o seu jogo, forte no jogo entrelinhas e com uma tomada de decisão notável no último terço.

Formado no FC Porto, estreou-se recentemente na 1ª equipa depois de ter sido preponderante na conquista da Youth League pelos dragões.

Internacional por Portugal em todos os escalões de formação.


Ponta-de-Lança – Dany Mota
Valor de Mercado: 300mil€
02/05/1998
Local de Nascimento: Niederkorn (Luxemburgo)
Altura: 1,80 m

Avançado lusodescendente fez a formação no Pétange, aos 17 anos rumou ao Virtus Entella, em Itália. Passou pela Juventus de Cristiano Ronaldo, cumpriu o objetivo de ser internacional sub-21 por Portugal, e agora transferiu-se para o Monza.

Destaca-se pela rapidez de execução, qualidade técnica e capacidade de finalização quer com os pés quer com a cabeça.

Falta-lhe jogar num campeonato principal para que se imponha e seja um nome a ter em conta no panorama nacional ao mais alto nível.

Internacional sub-21 por Portugal.


Estas foram as escolhas do Daniel Soares. Felizmente em Portugal as escolhas de qualidade são muitas para se poderem fazer outros "onzes" com o mesmo nível de qualidade. 

Que estes tempos diferentes nos permitam valorizar mais aquilo que nos rodeia. Também no Futebol...