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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A legitimidade de um golo: Marché - Corona - Taremi

Pontapé longo de Marchesín. Fantasia de Corona. Finalização de Taremi.

Assim se fez o segundo golo do FC Porto frente ao SC Braga. Uma simplicidade de processos aparente que não é assim tão básica quanto possa parecer. Senão, vejamos…

Marchesín reconhece a superioridade numérica dos jogadores do Porto na extrema-esquerda, em 3v2 ou 2v1, dependendo da perspectiva.

Luiz Diaz disputa o lance, permitindo a Corona ficar em situação de antecipação para eventual ressalto.

Corona em situação de 1v1 ofensivo é propenso a ter sucesso.

Agressividade táctica no ataque à baliza do Braga por parte de muitos jogadores do Porto.

Taremi reconhece o melhor espaço para poder ficar em óptima situação de finalização.

Por vezes temos a tendência de sobrevalorizar golos consequentes de 30 passes, mas a verdade é que este golo do Porto é tão legítimo quanto esses.   




quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O fim do que não começou - o FC Porto e a sua "Visão 621"


Com a saída confirmada de Fábio Silva e as possíveis saídas de Diogo Leite, Vítor Ferreira, Tomás Esteves ou Fábio Vieira, fica sem efeito aquilo que já chamávamos de “Visão 621”.

Mas comecemos pelo início. Chamava-se “Visão 611”. Era um projecto fantástico e apaixonante que cativava qualquer estudante de Futebol da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, que era o nosso caso.

Balizado em três categorias, a do recrutamento, a do desenvolvimento e a do rendimento, “o objectivo era potenciar ao máximo a qualidade dos jogadores, para que a formação produzisse mais jogadores capazes de integrar o plantel principal e para que a equipa principal ganhasse mais vezes.” (O Jogo, 2016)

Isto, de preferência concretizado entre os anos de 2006 e 2011, daí o nome do projecto. Contudo, o 6 não é apenas o número do ano inicial. Pinto da Costa ia mais longe e apontava o número 6 como sendo o número de jogadores titulares na equipa principal oriundos das suas equipas de formação.

Os anos foram passando, os jogadores evoluindo, mas a Visão não passou muito para dentro do Campo. Sobretudo, porque as pessoas que idealizaram e operacionalizaram o projecto foram saindo. E quem os substituiu tinha uma outra “visão”.

Criticado até pelo próprio presidente da Câmara do Porto, este projecto esteve longe de ser um insucesso ao contrário do que o querem fazer parecer. Foram muitos os jogadores de qualidade que “nasceram” e “cresceram” segundo estes princípios, tendo muitos deles atingido patamares de qualidade bastante superiores.

Contudo, o Futebol vai muito além do sucesso dentro de campo, e quando os valores económicos se sobrepõem aos valores desportivos e mesmo culturais é natural que projectos menos imediatos como este sejam desvalorizados…

Resta-nos assim esperar pela “Visão 631”.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

40km de Escolas de Futebol dos "TrêsGrandes"


Com cerca de 40 kms de distância, os “Três Grandes” estabeleceram-se com ainda mais força no centro de Portugal para a época 2019/2020.
Fornos de Algodres viu começar uma “Benfica Escola”. O Grupo Desportivo de Mangualde assinou protocolo com o Sporting Clube Portugal para ali funcionar um “Pólo de Recrutamento” e desenvolvimento de jovens leões. Viseu, novamente através do Clube de Futebol Os Repesenses receberá a 23ª “Dragon Force”.
Nada contra este tipo de protocolos e parcerias. Até porque já tivemos o privilégio de trabalhar numa Dragon Force e numa Escola Academia Sporting e quão enriquecedor foi para nós essa passagem… Mas volvidos alguns tempos, reflectimos bastante acerca do trabalho destes projectos.
O seu impacto é sempre extremamente positivo na comunidade. São habitualmente escolhidas pessoas extraordinariamente competentes para desempenhar as funções de Coordenadores, com experiência e conhecimento metodológico bem acima da média, que acabam por ser ao mesmo tempo excelentes formadores de treinadores (normalmente) locais.
Aqui é que entra a nossa admiração! Não devia esse trabalho ser feito antes pela Federação Portuguesa de Futebol ou até mesmo pelas Associações de Futebol? É vulgar ouvirmos/lermos dos românticos que “os Melhores Treinadores devem estar na Formação”. Então e os Melhores Treinadores de Treinadores, onde devem estar?
O que temos vindo a assistir nos últimos tempos é precisamente um aumento do papel de responsabilização dos clubes-mãe em formar treinadores. A Federação e as Associações de Futebol escusam-se do seu trabalho e estas filiais acabam por beber dos ensinamentos metodológicos e operacionais dos seus clubes-mãe tentando tirar os respectivos dividendos.
Do ponto de vista técnico os dados que temos obtido são positivos, pois o Futebol local acaba sempre por verificar uma melhoria do ponto de vista individual e colectivo. E isso é sempre o que importa mais!
Mas e o resto? Até que ponto deveremos continuar com o endeusamento dos “Três Grandes”? Por este andar, daqui a umas dezenas de anos podemos correr o risco de termos quadros competitivos formados apenas pelos Portos, Sportings e Benficas espalhados por Portugal…   

sábado, 3 de dezembro de 2016

André Silva e os golos - dissecando a sua performance

Consideramos, tal como muitos, que André Silva é o melhor avançado português da actualidade. Com apenas 21 anos, o ponta-de-lança portista mostra uma grande capacidade e potencial para ser um jogador de eleição.

Desenvolveu-se fora da corrente doutrinada por muitos dos pensadores do futebol de formação do FC Porto, tendo na dimensão física do seu jogo, uma das suas maiores armas. Contudo, o que mais nos cativa, é o facto de ser muito habilidoso com os dois pés, inteligente nas diagonais e na ocupação dos espaços perto da baliza, de passada larga. Para nós, tem tudo para ser um jogador de referência. Mas porque é que ainda não o é?

Julgamos que, desde cedo, acolheu em si uma responsabilidade tremenda de ser o marcador dos golos do FC Porto. Ainda como jogador da “B” era muita a pressão para ser a 1ª escolha da equipa principal, e até para ser convocado para os AA de Portugal. Já nesta época, e agora como indiscutível no FC Porto e na Selecção Campeã Europeia é-lhe incutida ainda maior “obrigação” para ser a solução dos problemas da sua equipa.

Daí nos perguntarmos. Será fácil aguentar com tal responsabilidade num “grande” como o FC Porto? Para nós, não. É assim que interpretamos o jogar de André Silva…

Não, desde logo pelo modelo de jogo operacionalizado pela sua equipa. É intenção do treinador Nuno Espírito Santo que o seu avançado tenha princípios de “construção” e menos de “finalização”. Esses princípios fazem com que André Silva jogue muitas vezes afastado das principais zonas de remate, aparecendo de costas para a baliza a dar apoios frontais aos médios-centro, não podendo depois explorar zonas mais adiantadas no terreno, já que as dinâmicas paralelas à sua ocupação mais recuada não são, depois, devidamente exploradas. Além disso, o FC Porto é uma equipa que vive muito dos cruzamentos, mas não consegue ser eficaz na ocupação devida do eixo atacante, estando muitas vezes André Silva em (muita) inferioridade numérica no momento dos cruzamentos.

E também dizemos que não, pela pressão que sofre por ter de tentar resolver um problema colectivo e estrutural na equipa, a ausência de golos. Recorde-se, por exemplo, o jogo em Tondela, onde o André teve uma exibição muito pouco conseguida, com tomadas de decisão muito individuais, fruto de uma necessidade quase obrigatória de ser ele a marcar o golo. Tentemos fazer o acompanhamento dos dados estatísticos relativos aos golos marcados pelo Porto.
  • ·         Em 20 jogos disputados nesta época, André Silva marcou 10 golos;  
  • ·         Dos 10 golos marcados, 6 dão a vitória, o empate ou a reviravolta;
  • ·         Já em 12 jogos não fez o “gosto ao pé”.

Para nós, que olhamos para o “Golo” de uma forma qualitativa e contextual mais do que apenas quantitativa, consideramos que são valores com uma carga emocional tremenda no jogar de um jovem jogador, que logo no início da época tem de marcar a sua posição, sem sequer ter conseguido impor-se na época anterior. É normal que interfira nos seus níveis de concentração e tomada de decisão.


Daí deixarmos esta pergunta no ar. Não será este um contexto demasiadamente adverso para André Silva mostrar o seu real valor?  

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Futebol Clube do Porto e de Naija

Quando observamos o fenómeno do Futebol, um dos nossos maiores prazeres é tentar encontrar padrões que ajudem a entender melhor o mesmo. Muito recentemente aconteceu isso enquanto assistíamos ao jogo entre FC Porto e o Dynamo Kyiv a contar para a UEFA Youth League, quando verificámos que o jogador que ocupava o lugar 6 do clube português era o nigeriano Chidozie Awaziem.


No caso concreto até poderá ser uma mera coincidência, já que Awaziem até tem atuado pela equipa B do FC Porto a defesa central, deixando normalmente a posição 6 dos Sub19 para o capitão João Cardoso. A verdade é que a este escalão específico do FC Porto, nas suas últimas épocas, tem escolhido um determinado perfil de jogador para ocupar essa posição. Foi com Mikel Agu que tudo começou. Seguiu-se, Fidelis Irhene (já que Valentine Akpey não chegou a ser inscrito embora treinasse na equipa) e agora parece ser Chidozie Awaziem que poderá vir a ser opção para uma das posições mais cerebrais do futebol moderno.

Optando normalmente o FC Porto por adoptar na sua formação um modelo de jogo que privilegia a posse da bola e o domínio e o controlo sobre o adversário, seria interessante obter uma resposta por parte dos responsáveis do clube do porquê de optarem por recrutarem jogadores com determinado perfil táctico-técnico e sobretudo táctico-físico, tão específico, para a posição 6.

Fruto do mérito, prestígio e capacidade do FC Porto, quase a totalidade dos jovens jogadores do futebol de formação em Portugal gostaria de representar um clube de tamanha qualidade. Nessa condição, será que de todos os jogadores a disputar os diversos campeonatos nacionais de Sub19, formados em clubes nacionais, não haverá nenhum que seja suficientemente competente para jogar nessa equipa? Ou a qualidade existe mas não encaixa no perfil?    
Esta nossa dúvida parece-nos pertinente enquanto treinadores-formadores para entender melhor o nosso próprio trabalho, tendo em conta as decisões tomadas pelas equipas técnicas do FC Porto. Supondo nós que a escolha em prol dos jogadores nigerianos – curiosamente todos os jogadores citados são naturais da Nigéria – está relacionada com a competência dos mesmos tanto em valor real como em potencial, não deixa de ser importante que perguntemos “o que há na Nigéria que não há em Portugal?”

Julgamos nós que o FC Porto escolhe este “tipo” de jogadores sobretudo devido ao seu perfil táctico-físico. Comparativamente ao jovem jogador português, e consequência de uma maturação biológica mais precoce – e até mesmo de um retracto genético que exponencia as suas capacidades físicas, o jogador africano, tende em ser mais desenvolvido fisicamente, o que o ajuda a ser, em norma, mais rápido, intenso, forte no choque e no desarme, bastante agressivo – chega a ser intimidador, etc. Características, portanto, mais estabelecidas na sub-dimensão física do jogador. E fá-lo provavelmente, porque, neste escalão já existe uma necessidade “resultadista” que não acontece noutros escalões, onde por vezes e em momentos da época mais competitivas, estas características sejam mais “usadas”. Queremos acreditar que seja por estas razões, da ordem biológica do jogador, e não pela possibilidade de em Portugal não se conseguirem formar jogadores capazes de desempenhar a posição 6 no FC Porto. Embora reconheçamos que metodologicamente, o processo de treino do futebol de formação português, não privilegie tanto a sub-dimensão física como outros o fazem. E isso talvez seja uma razão para que nós, em Portugal, tenhamos Rubén’s Neves’s e outros países, como a Nigéria, não…


Como é óbvio, seria muito mais interessante que fosse um responsável do FC Porto a explicar-nos o porquê desta opção sobre Awoziem e companhia. Enquanto isso não acontece, resta-nos continuar a reflectir e a esperar que novos Rubén’s Neves’s apareçam.