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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Entre-Linhas com Bruno Pereira

Nesta edição do espaço “Entre-Linhas” convidámos o treinador Bruno Pereira, a propósito dos seus artigos que tem escrito na plataforma “Futebol de Formação”. 

Ele tem-se debruçado em temas como o Talento, o seu Desenvolvimento, a sua Identificação, o Futebol de Rua e mais recentemente, a Técnica, que tanto nos interessam ver debatidos e reflectidos. 

Isto tudo, enquanto desempenha as funções de treinador-adjunto na equipa grega Episkopi. 



1. Aquando da abordagem ao tema do Futebol de Rua, falas de “levar a rua para dentro do treino”, onde utilizas as referências ao “local/espaço”, a “autonomia”, as “horas de prática” e a “emotividade”. Ora, mais que lamentar a inevitabilidade do desaparecimento do Futebol de Rua, é urgente trazê-lo para o Treino. Podes explicar-nos melhor como tentas fazê-lo? 

Na minha opinião, o Futebol de Rua, ou melhor a sua essência e o seu espírito (intrinsecamente ligado às “Regras do Futebol de Rua”, mas também ao local/espaço e condições de onde e como era jogado) devem fazer parte do processo de treino, em particular no âmbito do Futebol de Formação. Acredito que pode enriquecer de forma substancial o treino e potenciar o desenvolvimento do Talento. 

Portanto, no processo e operacionalização do treino é necessário assegurar a presença desses quatro “ingredientes”: variabilidade e diversidade da prática, promoção da autonomia, elevado número de horas de prática e ambiente de grande emotividade. 

Neste sentido, procuro que tudo aquilo que se faz valorize o espírito competitivo, isto é, associo sempre competição (“jogar para ganhar”) aos contextos de treino (exercícios) e, consequentemente, apelo à cooperação (mecanismo fundamental nos processos de evolução). Ao fazê-lo sei que vou criar uma atmosfera de elevada emotividade que favorece e fortalece a aprendizagem e apela à paixão, resiliência (antifragilidade), transcendência e superação. 

No que diz respeito à variabilidade e diversidade da prática, recorro a diferentes estratégias relacionadas não só com o local/espaço de jogo, mas também com o tamanho do campo, bem como, com o tipo de bola. Vou utilizar aqui um exemplo (onde associo também os restantes “ingredientes”) para explicar a forma como concretizo estas questões: 

· Torneio Sobe e Desce 3x3 (“x” jogos de “y” tempo; dimensões “C x L” – podem variar de divisão para divisão; quem perde desce, quem ganha sobe; prémio para quem termina em primeiro lugar e castigo para quem termina em último). 

o Campo 1 (1ª Divisão), campo com baliza normal e guarda-redes; jogado no sintético, com bolas de jogo e treinador a repor bolas. 

o Campo 2 (2ª Divisão), campo com mini-baliza e sem guarda-redes; jogado no sintético, com uma única bola de jogo de tamanho inferior. 

o Campo 3 (3ª Divisão), campo com mini-baliza e sem guarda-redes; jogado fora do sintético, com uma única bola e já muito gasta e vazia. 

Nota: esta lógica pode ser aplicada a situações jogadas, bem como, a situações de agilização Técnica, por exemplo, Torneio de Ténis-Fut. 

Para promoção da autonomia, no meu processo de treino não abdico de momentos em que os jogadores possam jogar em “modo selvagem”. No fundo é “jogar à bola”, por exemplo GR+5x5+GR, recorrendo a regras do Futebol de Rua, como por exemplo, jogadores a fazer equipas e jogo em modo “bota-fora” (quem sofre sai). No entanto, para mim é fundamental que a liberdade destes momentos também respeite uma determinada ordem (o jogar), presente implicitamente seja pela estrutura ou por determinadas regras (exemplo: golo de primeira vale 2). 

Por fim, quanto ao número de horas, para mim em primeiro lugar há que rentabilizar e maximizar o tempo de treino. Para tal, aquilo que se faz tem de ser relevante, isto é, o treino de qualidade tem de ser focar no essencial (tem de ser jogo). Em segundo, podem criar-se estratégias para que os jogadores joguem futebol e estejam em contacto com a bola para lá do treino. Nomeadamente, pedir aos jogadores que venham para o treino mais cedo e nesse período deixá-los jogar (aqui também se pode estimular a prática de jogos que também existiam na rua: jogo da parede, jogo dos cruzamentos, “bota-atrás”, bola na barra, ...) e brincar com a bola (mais um momento em que os restantes “ingredientes” aparecem, em particular a autonomia). Também se poderão dar tarefas para casa, como realização de habilidades com bola, em jeito de desafio. 


2. Até onde o Treino e o Jogo que valorizam “a inteligência de jogo e a capacidade táctica” e “a relação do corpo com a bola e a capacidade técnica” andam de mãos dadas? É que parece que é proibido trabalhar a “relação do corpo com a bola” quando se chega ao escalão sénior… 

Na minha opinião, a relacção do corpo com a bola não só pode como deve ter espaço naquilo que é o processo de uma equipa sénior. Os contextos de agilização Técnica têm um papel muito importante, alargando as possibilidades dos jogadores, em termos de adaptabilidade e gestualidade (aumento de graus de liberdade do corpo) e, por sua vez, enriquecendo o jogar da equipa. Em consequência, acredito que o corpo, com maiores graus de liberdade, mais agilizado, sensível e coordenado, estará menos propenso a lesão, ou seja, a equipa terá menor probabilidade de perder jogadores. 

Quanto à questão da Táctica e da Técnica, no meu ponto de vista, a Técnica está sobrecondicionada à Táctica – enquanto dimensão hierarquicamente superior que guia todo o processo e que coordena a dimensão Técnica, bem como as restantes. De tal forma, elas andam necessariamente de mãos dadas, na medida em que é em função do jogar que se aspira, isto é, da intencionalidade (Táctica) que a Técnica se incorpora, se desenvolve e se manifesta. Em resumo, diria que do meu jogar (e treinar) emerge uma determinada Técnica (Específica) – que não é fechada, ela deve estar em aberto e ter abertura para que o jogador possa dar resposta à imprevisibilidade do jogo, sobretudo, em termos de detalhe (plano micro). 


3. Dizes-nos que “segundo Pereira (2014), as crianças e jovens devem tornar-se especialistas no que melhor fazem”. Como poderemos recuperar a “Individualidade” de cada jogador? É que o Processo de Formação (seja desportivo ou académico) parece estar a ser caminhar precisamente para a uniformização em vez da diferenciação, por mais esforço que haja por parte de muitos investigadores… 

Esta é uma questão que nos devia preocupar a todos, enquanto sociedade. 

No Futebol, assistimos a uma contradição: uma procura incessante pelo Talento (jogadores diferenciados), ao mesmo tempo, que os processos de formação/desenvolvimento tendem em grande parte para uniformização. Tendência essa que tem de ser necessariamente contrariada, em toda sociedade, nomeadamente na Escola e no Desporto. 

Neste sentido, em particular no Futebol de Formação, os treinadores no plano conceptual e no plano da concretização, isto é, a ideia de jogo e o processo de treino tem de respeitar a natureza caótica e imprevisível do jogo, sobretudo, no plano micro. Portanto, o treinador tem de perceber que não pode controlar tudo, muito menos controlar o jogo ao nível do detalhe. De tal forma, a ideia de jogo do treinador é concebida em termos de princípios e subprincípios (dinâmicas colectivas), sendo os sub-subprincípios uma emergência do “aqui e agora” (dinamismo da dinâmica) em função daquilo que é a individualidade de cada jogador. No que diz respeito ao treino, o treinador não deve procurar controlar ou definir aquilo que é o seu jogar ao nível do comportamento individual. O Professor Vítor Frade tem uma expressão que ilustra bem esta questão: “O jogador é livre de agir, sem agir livremente”. Portanto, o jogar e o treinar têm de dar espaço à expressão da individualidade, estando sobrecondicionada à intencionalidade Táctica (colectiva) – o todo (macro) tem de estar sempre presente. Se assim não for, isto é, se o colectivo não estiver a priori facilmente caímos no individualismo (outro problema da nossa sociedade). 

Na minha opinião, o jogar (e o treinar) de qualidade tem de ser manifestamente colectivo, dando espaço à expressão e potenciando a individualidade e acredito que assim poderemos ajudar a contrair estas duas tendências: uniformização e individualismo.


4. Citando Barreira (2020) num outro artigo teu, “O jogador para ser identificado tem de ser desenvolvido previamente.” Por mais que gostemos da área da “Identificação do Talento”, tendo mesmo até já desempenhado essas funções, não achas que estamos a ir pela sobrevalorização desta área em detrimento da área do “Desenvolvimento do Talento”? 

No meu ponto de vista, no Futebol de Formação o foco tem de se orientar para o Desenvolvimento do Talento e, por isso, a grande preocupação dos clubes deve ser a de aumentar a qualidade do seu processo. O que não invalida que o clube invista na Identificação do Talento (e no Selecção do Talento, porque tal também contribui para a melhoria da qualidade do processo). Porém a fiabilidade da identificação será tanto maior quanto mais tarde ocorrer, porque o processo de Desenvolvimento do Talento é longo e não linear. 

Aquilo que sinto é que os clubes muitas vezes não dão tempo aos jogadores de se desenvolverem, de confirmarem e de expressarem o seu potencial. Isto porque já há outros jogadores identificados que naquele momento já têm um rendimento mais elevado – tendência para “ver ao perto”. No entanto, por vezes, anos mais tarde, o jogador que tinha saído desse clube acabou por crescer noutro contexto e confirmar o seu potencial e aquele que veio substitui-lo acabou, eventualmente, também por ser substituído e não atingiu o potencial que o seu rendimento parecia indicar. 


Sei que acompanhaste o Documentário da RTP, “Deus Cérebro”. Esta questão acaba por ser um reflexo daquilo que os neurocientistas diziam: estamos reféns do hemisfério esquerdo (foca-se no detalhe, na informação mais próxima em termos espaciais e temporais) e parece que temos uma lesão no hemisfério direito (permite-nos compreender o Mundo e ter uma visão ampla no tempo e no espaço). É urgente equilibrar estes dois “mundos”. 


5. Por mais que uma vez falas na “regra das 10.000 horas”. Ao mesmo tempo que assistimos a uma “Vertigem da Pressa” na procura de sucesso imediato por alguns miúdos (e por as pessoas que os rodeiam), vemos alguns veteranos a darem verdadeiras lições de compromisso, disciplina e determinação através da forma como Treinam e Jogam… Até que ponto é perigoso para a Formação de um jovem jogador, esta “Vertigem da Pressa”? 

Ora, é um pouco aquilo que já indicava na resposta anterior... Há que ter paciência, porque o processo é longo e não linear. 

A “Vertigem da Pressa”, tal como a tendência de uniformização e o individualismo são problemas sociais. Hoje quer-se tudo imediato, instantâneo. No Futebol vemos isso no próprio jogo e no processo de formação. 

Na minha opinião, como diriam os antigos “a pressa é inimiga da perfeição” e no que diz respeito ao Talento e ao seu desenvolvimento, diversos autores em diferentes áreas já demonstraram que para se atingir a excelência (Futebol de Alto de Rendimento) é necessário cumprir a “regra das 10 mil horas” ou a “regras dos 10 anos”. Só mediante o acumular deste número de horas de prática se pode aspirar aos patamares de rendimento elevados. Mas tem de ser prática de qualidade! Por isso, a “Vertigem da Pressa” no jogo (e no treino) em nada contribuem para o Desenvolvimento Talento – processo que tem necessariamente de fugir à pressa, há que dar tempo para os jogadores se desenvolverem e há que entender que este processo não vai ser sempre a subir, vai ter altos e baixos. Nos altos há que ter cautela para não cair no endeusamento (pode ser em causa o futuro) e nos baixos há que ter sensibilidade para entender a razão e para perceber que esse baixo pode vir a tornar-se um impulsionador para o futuro desenvolvimento.


6. Abordas o versículo do Evangelho de S. Mateus: “Porque àquele que tem, mais lhe será dado, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.” Parafraseando-te “Em termos práticos verifica-se que os jogadores selecionados são expostos a processos de treino de maior qualidade e têm oportunidade de competir em contextos de nível mais elevado. Em sentido oposto, os jogadores não selecionados têm acesso a processos de treino de menor qualidade e a competições de menor exigência.” Em que medida, Treinar e Jogar com os melhores potencia um desenvolvimento mais eficaz dos jogadores? É que esta “regra” poderá ir muito para além do Efeito da Idade Relativa, passando, por exemplo, pelo contexto geográfico de desenvolvimento… 

Novamente entra aqui a questão de se tratar de um processo longo e não linear... 

Frequentemente, a Identificação e Selecção do Talento é contaminada por aquilo que é o rendimento no momento do jogador, o que leva os clubes a recrutarem os melhores e não necessariamente aqueles com mais potencial. De tal forma, tendem-se a dar mais e melhores oportunidades a alguns jogadores e prejudicando-se outros... Por isso subescrevo o Professor Daniel Barreira: previamente à Identificação e Selecção tem de estar o Desenvolvimento, só assim asseguramos uma maior fiabilidade do processo. 

Quanto à questão, a minha opinião é que treinar e jogar com os melhores potencia o desenvolvimento dos jogadores. Agora, aquilo que me parece é que os clubes ao querem ter todos os melhores dentro do seu processo leva a que haja uma perda de qualidade nos outros clubes (que por sua vez também irão perder qualidade no seu processo de formação), ou seja, o nível de treino pode aumentar no clube que recruta, mas o nível das equipas que se irá defrontar ficará diminuído pela perda dos seus melhores jogadores. 

Concretamente ao contexto geográfico, parece-me que pode ser importante para o Futebol Português criarem-se regras que limitem a área de recrutamento dos clubes, pelo menos até uma determinada idade. Ao mesmo tempo que se devem dar maiores apoios aos clubes de regiões interiores e das periferias no sentido dos mesmos terem capacidade para ter melhores profissionais, nomeadamente treinadores e em situações não precárias. 


7. Em relação ao processo de treino da sub-dimensão mais técnica, consideras que o mesmo deve ser operacionalizado numa perspectiva mais integrada ou numa perspectiva mais complementar? 

O Professor Vítor Frade diz-nos que o “O Futebol não se ensina, aprende-se.” Nesse sentido, considero que o desenvolvimento da Técnica (Específica) deve acontecer, fundamentalmente, pela vivenciação do jogo (do jogar da equipa). Sendo que o treino tem de ser jogo. 

Todavia, como já referi, os contextos de agilização Técnica também devem ter espaço no processo de treino enquanto momentos potenciadores da Técnica (devem também ser “jogo”) – relacção do corpo com a bola (sensibilidade e habilidade motora) e gestualidade. Sendo que podem surgir antes ou depois do treino, na parte inicial do treino e até na parte fundamental, por exemplo, no treino de recuperação. No entanto, para mim, não são momentos complementares, são fundamentais, porque visam o enriquecimento do meu jogar e dos meus jogadores. 


8. Tens a mesma opinião num contexto de exigência de nível mais regional, onde o tempo/espaço aquisitivo da sub-dimensão estratégica é menor e a emergência do “individual” sobrepõe-se muitas vezes sobre o “colectivo”? 

Na minha opinião, a essência do processo é a mesma. Seja num clube de formação de dimensão nacional ou numa academia local, num clube profissional ou numa distrital de séniores o processo deve aspirar o desenvolvimento de um jogar (colectivo). De tal forma, nada se sobrepõe ao jogar (entenda-se Dimensão Táctica), porque é em função dele que a equipa e os jogadores (individual) se desenvolvem (nas dimensões Técnica, Física, Psicológica e Estratégica). 

Pessoalmente, recordando as experiências pelas quais passei, com os devidos ajustes face aos diferentes contextos e comtemplando aquilo que também foi/é o meu processo de crescimento, os processos sempre obedeceram a uma determinada forma se ser, a um determinado sentir e a um determinado saber.


9. Como periodizas em termos de conteúdo o Processo de Treino do “Desenvolvimento Individual” para uma época desportiva? Infelizmente não encontramos muita informação sobre essa matéria, sendo este “tipo” de treino muitas vezes tratado de forma muito aleatória… 

Dentro daquilo que é o processo de treino da equipa, como disse anteriormente, aquilo que guia, direcciona e coordena o desenvolvimento individual é o jogar a que se aspira. É em função desse jogar (colectivo) que se têm determinadas preocupações no sentido de potenciar os jogadores. 

Atualmente, os clubes possuem departamentos dedicados ao desenvolvimento individual, sendo que na minha opinião, também neste âmbito aquilo que orienta o processo deve ser a forma de jogar da equipa (pode ou não ser transversal ao clube). O Vítor Matos, adjunto no Liverpool, recentemente referiu que uma determinada ideia de jogo, força um determinado desenvolvimento individual. Pelo que, aquilo que se faz em termos individuais tem de fazer sentido para o colectivo e mais que isso tem de contribuir para o crescimento colectivo e, claro, individual. 

No que diz respeito às escolas de treino individual, externas e independentes aos clubes, parece-me que há algumas questões importantes. Em primeiro, os responsáveis devem perceber junto dos jogadores ou até dos treinadores aquilo que são as suas ideias para que o processo de treino individual se possa alinhar com aquilo que é o colectivo. Depois, estas entidades devem desenvolver um trabalho no sentido de perceber que competências são transversais aos jogadores de alto nível e procurar desenvolvê-las. 

Porém, na minha opinião, a lógica deve ser a de fazer aprender, mais do que ensinar. De tal forma, tudo tem de ser jogo, no sentido, em que são situações com abertura e imprevisibilidade. Assim, também o processo se afastará de uma lógica de ensino “por gavetas”, no sentido em que não há uma periodização prévia de conteúdos, isto é, hoje “isto”, amanhã “aquilo” e para a semana “aqueloutro”. O processo é que nos vai levando a hierarquizar e definir determinadas prioridades. 


10. Por mais contraditório que possa parecer, olhamos para o Treino de “Desenvolvimento Individual” com uma necessidade muito grande de decorrer com adversários e colegas de equipa, para assim poder acolher a dimensão Complexa, Sistémica e Caótica que o Jogo oferece… Logicamente, admitimos e utilizamos até contextos mais “fechados” dentro desse treino, mas sem nunca esquecer, pelo menos uma destas dimensões. Concordas? 

No meu entendimento é fundamental que o processo de treino de Desenvolvimento Individual respeite aquilo que é o jogo, pelo que é necessária uma visão sistémica e complexa de forma a que o treino seja representativo do caos e imprevisibilidade associada ao jogo. 

Portanto, eu prefiro ir pelo Treino Individual por pequenos grupos e não pelo Treino Individualizado, porque no Treino Individual consigo criar contextos representativos do jogo, enquanto que no Treino Individualizado fico sempre aquém daquilo que é o jogo... Os contextos tornam-se mais fechados e analíticos. Ainda assim, neste âmbito individualizado procuro criar contextos que impliquem abertura, imprevisibilidade... O treino aqui é muito direcionado para a relacção do corpo com a bola (habilidade motora e sensibilidade), para o desenvolvimento da gestualidade (e adaptabilidade) e para o refinamento das acções táctico-técnicas – recaindo o foco sobre a precisão e eficácia, mais do que no “gesto técnico” (em termos biomecânicos), só assim poderemos respeitar aquilo que é o jogador (Corpo), na sua individualidade. 


11. Na mesma altura em que “choramos” pela ausência de um maior grau de Criatividade no Futebol, os treinadores de formação em Portugal vêem-se castrados de oferecer aos miúdos um processo rico desse ponto de vista. As restrições e os constrangimentos causados pela pandemia são tantos, que já chegámos a uma altura onde esses treinadores estejam a treinar tudo menos Futebol… Que prática é possível proporcionar ao longo de uma época inteira na Formação, respeitando, por exemplo, o distanciamento obrigatório entre jogadores? 

Esta questão tem muito a ver com aquilo que respondi anteriormente... 

A minha experiência profissional relacionada com o treino em pandemia levou-me a criar treinos para os jogadores realizarem em casa e numa outra fase passei pela situação de treinos em grupo. Na primeira situação, aquilo que me parece ser importante é procurar dar aos jogadores propostas que contrariam a tendência deste momento para “fechar” (porque não há jogo). Nesse sentido, devem se propor as mais diversas e variáveis situações de agilização Técnica e aqui os treinadores têm de ser altamente criativos. Depois em termos Físicos é importante que se façam coisas que respeitem aquilo que é o padrão de solicitação e implicação muscular (gestualidade e adaptabilidade). 

No âmbito do treino por grupos, não vivenciei essa restrição de distanciamento obrigatório. Ainda assim, nessa situação (muito difícil e que realmente de Futebol pode ter muito pouco) parece-me que se podem recorrer a diferentes contextos de agilização Técnica, no sentido de desenvolver a relacção do corpo com a bola (habilidade motora e sensibilidade), a gestualidade (e adaptabilidade) e de refinar das acções táctico-técnicas. Esses contextos podem ser desde os mais fechados, analíticos e individuais, como os toques de sustentação, as habilidades com bola e os gestos técnicos, até aos mais abertos, como por exemplo, jogo baliza-a-baliza ou o Ténis-Fut. 

Outra abordagem que pode ser pertinente e benéfico é os treinadores criarem tarefas relacionadas com a visualização e análise de jogos e de jogadores. Os mais novos podem ser incentivados a ver as suas equipas preferidas e os seus ídolos, no sentido de terem referências sobre aquilo que é o jogo de alto nível e de terem modelos para “copiar”. Os mais velhos podem ser estimulados a ver determinadas equipas a jogar (importante que vejam o jogo todo e não apenas resumos) e a analisarem essas mesmas equipas, questões colectivas e individuais. 

Finalizando, parece-me muitíssimo importante, para o País, para a Sociedade, para o Desporto e para o Futebol que o Futebol de Formação (e também o Futebol Amador!) possam voltar a treinar com normalidade (urgentemente)! Estamos a colocar em causa o futuro de milhares de crianças e jovens e o seu desenvolvimento integral e, consequentemente, o futuro de Portugal.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Uma Ode ao Taarabt - ou o que é uma reflexão sobre Criatividade

O ano de 2020 está a ser um ano um ano bem difícil que por razões óbvias, já todos o sabemos.

Paralelamente, também o está a ser no que diz respeito à Criatividade. No mesmo ano perdemos Sir Ken Robinson, expoente máximo da investigação e reflexão sobre Criatividade; e Diego Maradona, um dos jogadores mais Criativos da História do Futebol, senão aquele que melhor manifestou esta capacidade.

Por coincidência, já há muitos anos que não era exigida à sociedade que fosse tão criativa como nos dias de hoje. Seja por uma questão de tentar encontrar formas de se divertir, de trabalhar ou até de sobreviver em contexto de tamanhos constrangimentos e confinamentos.

Também no Futebol, e fruto da evolução (?) do Jogo, urge a necessidade do jogador e da equipa serem criativos e imprevisíveis perante o adversário, como forma de ultrapassar a crescente preponderância da dimensão estratégica que o Futebol de hoje acarreta.

Ao vermos Futebol português, existe um jogador que nos últimos anos nos tem cativado a tentar contrariar essa tendência mais “fechada” que o jogo tem tido: Falamos de Adel Taarabt.

Na mesma altura que choramos a morte de Maradona e nos lamentamos de uma forma gritante da ausência de Criatividade no Futebol actual, assistimos a uma crucificação daquele que poderá ser o jogador mais Criativo que passou por Portugal nos últimos anos.

Quem ataca o marroquino justifica-o na maior parte das vezes com o reducionismo da estatística das “bolas perdidas”, desprezando a premissa preconizada por Vítor Frade de que a estatística é muitas vezes como o biquíni, mostrando muita coisa mas tapando o essencial.

Outro “problema” que Taarabt parece manifestar prende-se com o facto de ele não ser um jogador que goste muito daquilo a que muito chamam das “amarras tácticas” do jogo. Ao contrário do que muitos treinadores (?) querem para a sua equipa, Taarabt nem sempre respeita uma cobertura defensiva, nem sempre preenche o espaço do duplo-pivot de uma forma mais eficaz e nem sempre toma uma opção demasiado segura. Ou seja, Taarabt mostra muitas vezes dificuldade em respeitar os sub-princípios dos sub-princípios que muitos treinadores procuram ver implementados nas suas equipas.

Treinadores esses que enquanto choram pelo desaparecimento do “Futebol de Rua”, são muitas vezes os primeiros a castrar ou a condenar os jogadores que trazem aquilo que melhor as ruas lhes deram para o Estádio.





Com todo o devido respeito, por aqui seremos sempre a favor dos Taarabts desta vida. Enquanto podermos, escolheremos sempre a Criatividade, a Imprevisibilidade e a Fantasia…

 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Que saudades da Rua! Esse espaço de vivência tão importante!


Num tempo de isolamento social, nunca a Rua fez tanta falta.

Começamos esta consideração com uma frase do psicólogo Eduardo Sá que nos diz: “A mim o que me preocupa é que os pais muitas vezes digam que quando eram crianças brincavam, tinham uma vida ao ar livre, tinham uma vida muito mais livre e que não queiram dar aos filhos aquilo que eles tiveram de melhor na sua infância.”
Reconhecendo os pais o valor da Rua para o desenvolvimento e crescimento das crianças e jovens, como acabaram por se tornar tão castradores dessa liberdade para os seus filhos? Esta pergunta é o mote para toda a nossa reflexão num período tão limitador de liberdades como o promovido pelo Covid-19.
Eduardo Sá vai mais longe quando sugere que “o Brincar” deveria ser Património Imaterial da Humanidade, declarando que “nunca ouvi falar tanto das crianças e nunca vi que se espatifasse tanto a infância”, com menos de 1h por dia para brincar para cerca de 70% das crianças portuguesas.
Já em 2001, o Professor Carlos Neto falava em analfabetismo motor, abordando a iliteracia física e motora devido ao desaparecimento ou quase extinção da brincadeira de rua.
O problema não é novo. Mas a necessidade de alterarmos este paradigma talvez nunca fosse tão urgente como agora, após semanas de isolamento em casa.

As recomendações da Organização Mundial da Saúde
Em 2018 a OMS publicou um documento que pretendeu “preencher uma lacuna” sobre a actividade física em idades mais precoces. Assim, aos bebés com menos de um ano, sugere-se a utilização dos tapetes interactivos e de pelo menos 30 minutos diários em posição de bruços. Já entre o um e os cinco anos de idade é recomendável que as crianças se mantenham activos pelo menos em 180 minutos diários, a brincar. Mesmo que a brincadeira não seja “energética” ou se qualifique como “actividade física”.
Sendo a primeira infância um período muito rápido de desenvolvimento cognitivo e físico pretende-se que um estilo de vida activo em idades tão precoces seja catalisador de níveis de actividade física ao longo da vida.

Os lamentos egoístas da vida adulta em “Tempo Covid19”
Também sobre o teletrabalho neste período, lemos várias notícias que alertavam para as dificuldades dos pais lidarem com os diferentes papéis e tarefas dentro de casa. Assumir a responsabilidade de Pais, Funcionários e Professores pode ser bastante complicado. Mas se um adulto não consegue lidar muito bem com essa variabilidade de responsabilidades, imagine-se como será a vida de uma criança que entra na Escola às 09h, sai às 17h30 para o ATL, saindo deste apenas às 19h, em que tem muitas vezes que ser aluno de matemática, estudo do meio, português, ginasta e músico, sem poder sequer ser CRIANÇA.

A falsa sensação de insegurança
Segundo os últimos rankings do Instituto para a Economia e Paz Portugal tem-se situado no Top 5 dos países mais seguros e pacíficos do Mundo. Ou seja, também não será por aqui que a Rua tenha perdido a sua importância. Com certeza que os avós de hoje não gostavam menos dos seus filhos do que os pais de agora, para permitir que a Rua fosse tão vivida há alguns atrás.

Por todas estas razões, continuamos sem conseguir perceber o porquê do desaparecimento de um dos melhores Contextos da desenvolvimento do ser humano.
Assim, deixamos a partilha daquilo porque entendemos que a Rua seja algo de tão importante, dividindo o seu conceito em três sub-dimensões.
1.    Rua enquanto contexto de desenvolvimento – olhamos muito para a Rua enquanto espaço-tempo de vivência motora repleta de estímulos desafiadores do corpo e do risco. Desde o acto mais fino de apanhar um caracol ao desafio total de uma subida a uma árvore, a Rua actua de uma forma Natural sobre o Corpo, dando-lhe o tempo e o espaço necessários para o seu crescimento. O facto de não haverem adultos por perto a constranger a liberdade de cada criança com regras e obstáculos, permite uma emancipação das crianças e dos jovens para os ajudar a eles próprios, por sua conta e risco, a desenharem e ultrapassarem os seus próprios limites. Aqui as brincadeiras e as actividades não têm hora para começar nem tempo para acabar. Não há uma sala de aula, nem um campo pré-definido. A criatividade natural das crianças e jovens permite um número de vivências quase infinitamente maior que aquelas vividas na escola.  
2.    Rua enquanto ambiente de socialização – numa sociedade cada vez mais individualista e egocêntrica, a Rua aparece novamente como um excelente meio de convívio social. O facto da Rua promover muito a cooperação (e também a oposição) entre crianças e jovens, potencia a valorização do Nós sobre o Eu. Além disso, a Rua é ainda um ambiente de constante partilha, seja de objectos, de vivências e até de alimentos. A força  e o encorajamento na adversidade, a resiliência para a superação, e a congratulação e partilha do contentamento, são comportamentos que só vividos em comunidade permitem o desenvolvimento do lado social do ser humano.
3.    Rua enquanto local de vivência emocional – o facto da Rua ser um espaço muito rico ao nível Ecológico e Sociológico, potencia também uma constante estimulação do lado emocional do indivíduo. O binómio desilusão vs felicidade constantemente presente neste ambiente, através dos seus diferentes obstáculos e barreiras, cria nas crianças e jovens uma necessidade muito grande em saber lidar com as várias frustrações e alegrias que as diferentes brincadeiras e actividades promovem nestas. Ao vivenciar essas experiências de uma forma partilhada, as crianças e jovens acabam por fortalecer laços de amizade que as marcam para o resto da vida.     

Se o Covid19 promover uma mudança de paradigma no quotidiano das pessoas, esperamos que a Rua recupere a importância de outrora. Caberá talvez à Escola, fazer uma melhor gestão do seu currículo, permitindo a valorização deste tempo-espaço tão importante…



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Artificialização do Futebol de Rua - Uma metodologia para trazer a Rua para a Academia

São várias as referências que nos ajudam a entender melhor a importância que o Futebol de Rua teve (e ainda tem) na formação técnica e humana do jogador. O livro “Futebol de Rua, um Beco com Saída - Jogo espontâneo e prática deliberada” de Júlio Garganta e Hélder Fonseca; e a REPORTV “No princípio era a bola” realizado e emitido pelo canal desportivo SPORT TV, são excelentes exemplos dessa valorização da que para nós é a melhor academia do mundo – a Rua!

Embora habitemos numa zona do país que permita que haja algum Futebol na Rua, nem todas as crianças que competem de forma formal, praticam a modalidade no seu dia-a-dia. Assim sendo, com esta reflexão pretendemos partilhar alguns pressupostos metodológicos que utilizamos no nosso processo de treino, tendo em conta a “artificialização” do Futebol de Rua.

espaço/tempo livre de treino – Na Rua não há treinadores, posições nem constrangimentos.
Consideramos bastante importante que sejam criadas áreas no treino que sejam livres de qualquer instrução por parte dos treinadores. Assim, os jogadores terão o seu espaço e tempo livres para experimentar, brincar e fantasiar à sua maneira.
Esta opção metodológica permite que haja uma auto-organização bastante interessante do grupo, assemelhando-se ao que se vê na Rua. Aqui, neste espaço, é muito comum existirem comportamentos mais invulgares como os jogadores de campo trocarem de funções com os guarda-redes, criarem-se desafios com aprendizagens novas, surgirem “árbitros”… Auto-escolhas que habitualmente não são consideradas pelos treinadores.

a não existência de uniformes de treino – Na Rua, qualquer roupa serve para se jogar à bola.
Ao colocarmos todas as crianças a vestir da mesma forma estamos, de certa maneira, a criar marcadores visuais muito homogéneos nas mesmas, impedindo o desenvolvimento da sua neuroplasticidade. Quando o mecanismo visual das crianças ainda está muito focado na bola, é importante que hajam alguns elementos que “stressem” positivamente a absorção de informação do envolvimento e nada melhor do que haver muitas cores e padrões para assimilar.
Além disso, na nossa opinião, esta opção – muitas vezes ligada à parte financeira do clube – contribui ainda para que a individualidade de cada jogador não emerja na equipa. As t-shirts dos clubes/jogadores preferidos são substituídas pela camisola do patrocinador, fazendo com que se perca a fantasia e a magia dos ídolos dos mais novos e com isso alguns comportamentos-exemplo não sejam tão repetidos/praticados como se desejaria.

a presença de sinalizadores dispersos aleatoriamente nos exercícios – A Rua está cheia de obstáculos que provocam trajectórias da bola menos lineares.
Esta opção de se colocarem sinalizadores aleatoriamente nos espaços de exercício, pretende simular a existência de obstáculos naturais presentes no Futebol da Rua. Já que nos pavilhões e nos relvados sintéticos não existem relevos no piso que possam provocar adaptações neuronais relacionadas com o controlo da aleatoriedade da trajectória da bola, os sinalizadores poderão ajudar a desenvolver essa capacidade.

trabalho de casa – Na Rua pode-se jogar todos os dias. Nos clubes só se pode jogar na hora dos treinos.
Ao promovermos a realização de “trabalhos de casa” – em especial em processos de treino restringidos a dois treinos semanais – estamos, indirectamente a convidar as crianças a aumentem a sua quantidade da prática do Jogo. No fundo, tentamos acrescentar um treino extra-clube ao processo semanal, orientado para espaços menos artificializados do treino.

o não-uso de coletes – Na Rua não existem coletes. Quando muito jogam os que têm camisola contra os que não têm.
Em quase todos os exercícios de confronto e oposição, uma das equipas ou jogador usa colete. Esta opção, cria de certa forma uma mecânica facilitadora à interpretação do meio envolvente por parte da criança.
Elas, ao saberem que os seus adversários são os jogadores que vestem uma cor diferente da sua, têm uma tarefa simplificada, já que não têm que estar tão concentrados nem têm que ser tão periféricos na sua análise e interpretação do ambiente de Jogo.

variabilidade do tipo de bola e de piso – Na Rua, qualquer bola e piso servem para se jogar.
Assim, diferentes bolas, com as suas diferentes superfícies, pesos e tamanhos, deverão ser utilizadas para ajudar a desenvolver as habilidades técnicas dos jogadores. A sua variabilidade permite à criança adquirir diferentes ajustes neuronais que provocam um maior controlo sensório-motor na sua relação com a bola.
Também o piso deverá ser diversificado. É diferente jogar-se no pelado, no relvado ou no alcatrão. Características como o atrito e a dureza do solo, as tensões musculares que actuam nos jogadores, os ressaltos do relevo, e até o receio que poderão provocar nos jogadores com a possibilidade de uma queda no mesmo, são bastante diferentes de piso para piso. É verdade que não é muito prático em termos de infra-estruturas treinar-se constantemente em diferentes pisos. Contudo, muitos complexos permitem que isso aconteça e os clubes e treinadores continuam a renegar os benefícios dessa condição.  

ausência de escalões – quando se joga na Rua, não existem os Sub9, Sub11, Sub13…
Não devemos nós potenciar no treino esta coexistência etária? Acreditamos que o contacto (devidamente reflectido pelo treinador) entre crianças mais novas e mais velhas, cria experiências diferentes sobre os jogadores, estimulando-as a ajustar os seus comportamentos em função de diferentes tipo de adversário. Fará sentido realizarmos com as crianças 100 treinos numa época sem se alterar minimamente o grupo de treino? A nós parece-nos que não.
No caso dos mais novos eles terão de pensar e fazer mais rápido, lerem e interpretarem melhor o jogo, serem mais agressivos, determinados e resilientes. Já os mais velhos terão mais tempo-espaço para experimentarem novos comportamentos e habilidades, terão oportunidade de ser mais técnicos e menos físicos e poderão tornar-se mais autoconfiantes na sua abordagem.

realização de jogos condicionados e de outras “brincadeiras” – Na Rua não há sinalizadores para contornar, nem “passa, tabela e vai”.
Quando se joga Futebol na Rua há o 1x2, o 2x2, o 2x3, o 3x3, o 4x5 e por aí em diante. Há o Jogo segundo determinada forma condicionada em função do número e da qualidade dos jogadores disponíveis. Não se contornam cones, nem se fazem exercícios analíticos de passe e recepção.
Para além das formas condicionadas existem anda outras brincadeiras muito enriquecedoras do ponto de vista da aprendizagem de determinadas habilidades e princípios. Na nossa região temos:
Jogo do Alemão – onde um jogador vai à baliza e todos os outros, em cooperação, tentam marcar golo depois após um remate precedido de uma bola aérea – tem de existir um remate de primeira sem que a bola contacte o solo antes do remate.
Jogo da Maria – em que um jogador tem a bola e todos os outros lha tentam tirar, utilizando para isso uns níveis de agressividade bem mais toleráveis que os níveis aceites pelas regras do Jogo.
Jogo do Vira – forma condicionada de jogo para quando apenas existe um guarda-redes. Ou seja, trata-se de uma forma jogada de 1x1, 2x2, 3x3, etc. em que ambas as equipas atacam e defendem apenas uma baliza, alternando-se o guarda-redes conforme o número de golos delimitado.

rotatividade do guarda-redes – Quando se joga na Rua, nem sempre há guarda-redes.
Julgamos interessante promover nalguns períodos do treino uma rotatividade relativa a esta posição específica. Somos a favor de uma experimentação de diferentes posições em campo, que permitam à criança terem diferentes estímulos inerentes à diferente zona do campo que ocupam.
Mais ainda para o caso particular do guarda-redes. É nossa intenção criar algum stress positivo junto das crianças que lhes façam ter mais bravura, uma interpretação diferente do jogo e, sobretudo, lhes ensinem a lidar com o insucesso da incompetência de jogar numa posição tão díspar da que estão habituados.
Além disso, em meios mais pequenos, poderá ser uma boa oportunidade de “descobrir” novos guarda-redes.


Com esta partilha tentámos mostrar a nossa visão sobre esta problemática do Futebol de Rua. Aguardamos que o debate surja e que diferentes formas de estar perante este “flagelo” sejam também partilhadas…