Contra
todas as expectativas, o Leicester City foi campeão! Por aqui, não somos muito
crentes em acasos, por isso fomos tentar saber um pouco mais sobre este “conto-de-fadas”
que são os Foxes…
Modelo de Jogo
Para
entendermos melhor o sucesso desta equipa dentro de campo, é importante
esclarecer e caracterizar o jogar deste Leicester. Equipa balizada por princípios
de jogo assentes numa rígida e disciplinada organização defensiva, bastante
pressionante e agressiva que tenta aproveitar através de rápidas transições
ofensivas qualquer espaço desnecessariamente criado pelo seu adversário.
Com
uma sobrevalorização da dimensão física, o Leicester procurou apresentar sempre
uma intensidade e velocidade muito altas no seu processo ofensivo,
caracterizado como foi dito acima por contra-ataques.
Com
uma eficácia e eficiência brutal, estes princípios foram extraordinariamente exponenciados
pelos seus belos jogadores, conseguindo, segundo dados da Opta, serem a equipa
que mais contra-ataques realizou, e também a equipa com mais golos marcados por
contra-ataque que qualquer outra.
Não
é um acaso que Jamie Vardy - o jogador dos contos-de-fadas que é esta equipa de
conto-de-fadas - tenha sido o jogador mais rápido da Premier League, ao atingir
os 35.44 km/h com uma média de 500 sprints por jogo.
Metodologia
de Treino
Das várias áreas de trabalho
que se têm destacado no Leicester, a metodologia de treino não tem sido a das
mais abordadas. Contudo, e tendo em conta que os Foxes alcançaram a glória com
uma organização (defensiva, claro) tão eficaz e com uma intensidade tão
elevada, sem com isso mostrar um número significativo de lesões, os métodos de
treino de Ranieri e companhia deveriam ser mais e melhor valorizados.
Em entrevista ao “Corrieri
della Sera”, Ranieri expõe algum do seu trabalho diário no clube.
“Eu acredito no treino, e
pode parecer uma heresia em Itália, mas acho que é tudo relativo.”
“Os meus jogadores estão a
treinar muito, mas não muitas vezes na semana. Na Inglaterra, o jogo é sempre
de alta intensidade e desgasta os atletas. Eles precisam de mais tempo para se
recuperar. Nós jogamos no sábado e o domingo é de folga. A segunda-feira é de
treino leve. Na terça, é treino pesado e, na quarta, descanso total. Na quinta,
outro treino pesado, enquanto a sexta é preparação para o jogo de sábado”.
“Faço questão que os
jogadores tenham, pelo menos, dois dias de folga na semana. Esse é o pacto que
eu fiz com o plantel no primeiro dia: eu confio em ti. Eu explico algumas
ideias sobre futebol uma vez ou outra, contando que tu me dês tudo o que tens”.
“Quando eles treinam, eles
colocam a mesma intensidade quando jogam uma partida. Eu nunca precisei dar
bronca em ninguém por ser preguiçoso”.
“O treino físico não é
importante em Inglaterra, já que eles treino com uma intensidade tão grande e
são competitivos até quando têm de fazer um sprint. Os próprios jogos são muito
exigentes. Os jogadores têm de recuperar primeiro, e treinar depois.”
Para entendermos ainda
melhor o treino dos Foxes, e continuando a pegar no que é a Premier League, e
sobretudo o que é o jogar do Leicester, é importante valorizar o trabalho
diário da sua equipa técnica, especificamente no que reporta à melhoria da
performance motora com o devido acautelamento do aparecimento de lesões.
Existe uma preocupação
extrema nos técnicos do Leicester para que os seus jogadores sejam capazes de
realizar sprints de uma forma regular sem que os seus corpos sofram com esse
comportamento. Por isso, o foco do “treino físico” é desenvolvimento dos níveis
de força nos músculos isquiotibiais com
a utilização de uma prensa feita à medida com pesos entre os 350-500kg; e a
utilização do equipamento NordBord que permite melhoria e monitorização da
força dos isquiotibiais, mesmo em exercícios pós-jogo.
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Às quintas-feiras, no final do treino, os jogadores
são expostos a realizar sprints de 40m, com elevados níveis de fadiga. Este
exercício tem como objectivo melhorar a preparação dos jogadores para a
prevenção de lesões, já que sem a exposição a esses sprints os jogadores têm um
risco maior do aparecimento de lesões nos dias de jogo.
Até sumo de beterraba foi
utilizado no processo já que segundo cientistas da Universidade de Exeter, melhora
a performance do sprint e a tomada de decisão, mesmo que em “apenas” 3.5%.
Crioterapia
Para além de terem alcançado
o título de campeões, o Leicester é também pioneiro na utilização da
Crioterapia, no tratamento de lesões. Os Foxes adquiriram uma câmara CryoAction
Whole Body Cryotherapy usada para recuperação e reabilitação de jogadores desde
a equipa principal até aos mais novos da sua academia.
A câmara foi desenhada para
o clube e permite o tratamento de três jogadores de cada vez, chegando a
alcançar ciclos de três minutos a temperaturas de 140°C negativos.
A crioterapia funciona pelo
arrefecimento da superfície da pele e dos tecidos subjacentes com ar arrefecido
usando azoto líquido - um processo supervisionado por pessoal médico. Este
processo faz com que haja o estreitamento dos vasos sanguíneos contrariando a inflamação,
desencadeando uma resposta biológica do tecido e das células às lesões e danos
celulares.
O tratamento pode durar até
quatro minutos e é realizado a temperaturas tão baixas como -140°C, para
promover a redução do impacto sobre as lesões dos tecidos moles. Na câmara, os jogadores
podem ser tratados pelas lesões dos tecidos moles, bem como à fadiga de jogo e
de jogo e aos efeitos do cansaço das viagens. Os corpos dos jogadores reagem ao
frio extremo com uma reacção natural chamado vasoconstrição.
Plantel
Até à Jornada 36, momento em
que alcançaram o título, os Foxes “apenas” apresentaram em campo 23 jogadores.
Com as saídas por empréstimo
de Kramaric, Benalouane e Ritchie De Laet, e juntando-se-lhes os nomes dos
guarda-redes Mark Schwarzer e Bem Hamer, que até à data ainda não
contabilizavam nenhum minuto, eram apenas 22 os jogadores do plantel principal
do Leicester – sem contar com as chamadas esporádicas dos Sub21.
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Estes valores permitem
reflectir sobre diferentes parâmetros da operacionalização do processo de
treino e, principalmente, de competição. Onde entram aqui os conceitos de
rotatividade, de fadiga ou de dinâmicas?
Recrutamento
Dos 22 jogadores do plantel
principal que finalizaram a época, 7 são novos jogadores, sendo que do XI
inicial padrão constaram os nomes dos reforços N’Golo Kanté, Fuchs e Okazaki.
Valores que não fogem à norma de outros clubes da Premier League.
No entanto, a diferença
entre o departamento de Scouting do Leicester e do dos maiores clubes da
Premier League prende-se com a eficácia das suas contratações a tão baixo
custo.
O Departamento de
Recrutamento é liderado por Steve Walsh, que acumula o cargo de
treinador-adjunto de Claudio Ranieri. Embora o nome do scout Ben Wrigglesworth
seja dos mais referenciado pelos media e comentadores desportivos, terá sido Steve
Walsh o grande responsável pelas contratações de jogadores como Mahrez ou
Kanté. Gary Lineker, antiga glória do clube e da selecção inglesa, diz mesmo
que o Arsenal contratou “a pessoa errada”, falando no nome de Ben Wrigglesworth,
que se transferiu em Fevereiro do Leicester para os Gunners. Recorde-se que
Steve Walsh já trabalhou com José Mourinho e André Villas-Boas no Chelsea, na
altura responsável pelo scouting de jogadores na Europa.
Para termos uma noção do que
foi a valorização dos “activos” do Leicester, e falando dos três jogadores mais
valiosos do plantel, temos os seguintes casos, avaliados pelo site
Trasnfermarkt: Mahrez de 500 mil € para 20milhões €; Vardy de 1,24 mil € para
12milhões €; e Kanté de 4,5milhões € para 10milhões €. E com uma avaliação
feita a 6 de Fevereiro de 2016…
Citando o Dailymail, a
metodologia de trabalho do scouting de jogadores é a seguinte:
“Walsh trabalha em estreita
colaboração com David Mills, scout-chefe do clube, que recebem informações
sobre os jogadores da equipe de scouts do terreno, bem da análise de vídeo a
partir do software Wyscout, uma empresa que contém milhares de jogos em todo o
mundo. Agentes de confiança também desempenham um papel significativo na
recomendação de jogadores que possam corresponder à equipa do Leicester.
Em primeiro lugar, o staff
técnico identifica a posição e estilo de jogo desejados, e, em seguida, faz-se
uma lista de opções elaborada com base no na possibilidade financeira
previsível em qualquer negócio.
Também importante, aliada a
todas as chamadas feitas ao longo deste processo é a apreciação das
estatísticas; é trabalho de algum responsável alguém triturar de forma forense
os números de qualquer jogador. Pense-se nas ocasiões de golo criadas por
minutos, distância percorrida e velocidade atingida, bolas recuperadas, além de
muitas outras variáveis.
O responsável por muito do
bom trabalho nesse sentido foi Rob Mackenzie, chefe do scouting técnico do
clube até o Tottenham Hotspur o ter contratado em fevereiro deste ano. Posteriormente
o assistente Ben Wrigglesworth foi nomeado para o seu lugar, um papel
impressionante para um jovem de apenas 24 anos de idade.”
Estatística
Dos 64 golos marcados pela
equipa, que fez do seu ataque o 3 mais concretizador, apenas dois golos foram
concretizados fora da área. Quase 1/3 desses golos apareceu na consequência da
marcação de bolas paradas com o maior número da prova, 9, no que toca a grandes
penalidades concretizadas.
Outro dado estatístico sobre
os golos marcados e sofridos pela equipa é o facto de o Leicester ser das
equipas que mais marcou e sofreu golos nos últimos 10min das partidas, numa
contagem de 13-10, respectivamente.
Apenas por 5 vezes, o
Leicester teve mais posse de bola que o seu adversário, sendo que por duas dessas
vezes foi contra o WBA – a equipa da Premier League com a pior média deste
parâmetro. Com uma média de 46% de posse de bola, o Leicester ficou no 18º
lugar desta classificação da Premier League. Os Foxes estão ainda nesse lugar
na contabilização dos passes realizados: 11.956. Pior ficam na percentagem de
precisão de passe, em que apenas são assertivos em 71% dos passes – 19º lugar.
Relativamente aos duelos, é
também interessante constatarmos que o Leicester tem a 3ª melhor percentagem de
tackles eficazes, com 44%. Contudo, nos duelos aéreos, a equipa apresenta a
pior média da Premier League – 42%.
Sobre a prestação defensiva,
e tal como se esperava, os resultados são dos melhores da Premier League: maior
quantidade de intercepções (783); 3º melhor resultado nos bloqueios a remates
(149); 3º melhor resultado nos alívios (1.152).
Também sobre os erros
defensivos, os Foxes foram os que menos erros cometeram no campeonato, onde em
apenas 1 dos erros originou 1 golo sofrido.
Por fim, e no que toca à
disciplina, os jogadores do Leicester foram dos mais cumpridores. “Apenas” 54
cartões (51 amarelos + 3 vermelhos) comparativamente com o Aston Villa com 77.
A época foi (é)
demasiadamente extensa para que tivesse sido um êxito acidental. No texto
anterior tentámos partilhar aquilo que fomos conseguindo absorver do “porquê” do
Leicester campeão. Tal como a temporada, também o sucesso é demasiadamente
complexo para se tentar explicar de forma linear. Contudo, uma certeza parece
existir. A de que Ranieri e companhia foram campeões com enorme justeza. Quer
se tenha gostado do seu jogar, ou não…
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