Para esta nossa primeira
conversa, temos o privilégio de conhecer melhor as ideias de Gil Sousa, treinador
e colaborador do Talent Spy – plataforma de futebol especializada em
observação. Em especial, quisemos saber sobre o seu trabalho diário na
identificação e desenvolvimento de talentos no futebol.
Conhecemos o Gil numa
formação de Coerver Coaching em Braga. Nesse evento ele logo mostrou ser uma
pessoa de partilha e de paixão pelo futebol, manifestando interesse em saber
mais sobre os formandos que o rodeavam.
Com passagens pelo futebol
de formação – com destaque para o Dragon Force, EA
Sporting e o GDU Torcatense - e pelo futebol
semi-profissional – SC Maria da Fonte e FC Tirsense, o Gil colabora ainda com a empresa
TalentSpy, especialista no Scouting de jogadores de futebol.
Pelo seu currículo e pelas
suas vivências pretendemos vir a aprender muito com ele nos próximos
parágrafos…
1.
Quando na investigação científica se procura
estudar o “Top” das mais diversas áreas de intervenção, tem-se concluído que
existem determinados “parâmetros fantasma” comuns a muitos deles. Data e local
de nascimento, resiliência, tipo de prática (especializada vs
multidisciplinar), são parâmetros “ocultos” ao olho nu, mas que a comunidade
científica julga serem cada vez mais importantes… Deverá o departamento de
scouting de um clube olhar para estes elementos?
GS: Numa primeira fase não acredito.
O primeiro ponto que tem de nos prender é a qualidade, a
qualidade do jogar… Agora esses aspetos mais invisíveis não deixam de ser
importantes, até para compreender aquilo que é o jogador, tanto quanto ao seu
jogar, como quanto ao seu lado humano. Na verdade isso trata-se de uma
contextualização. E para contextualizar, quantos mais dados conseguirmos obter
de forma fidedigna melhor. Mas sem nunca perdermos o foco naquilo que é o cerne
da questão: a qualidade.
2.
Na nossa tese de mestrado, concluímos que 44%
dos jogadores seleccionados para as diversas equipas jovens nacionais, dos
Sub15 aos Sub21, eram nascidos no primeiro quartil de nascimento. Deverá a data
de nascimento (em especial o quartil de nascimento) ser tida em conta na
identificação e recrutamento de um jogador? E no seu desenvolvimento no treino?
GS: Não. Uma vez acredito
que a qualidade do jogar tem de ser o fator que medeia tanto o critério de
seleção, como o de desenvolvimento. Se há coincidências devemos é perceber o
porquê de elas acontecerem. Isso é outro assunto e que pode estar relacionado
com inúmeras questões. (Desde o facto de poder existir uma seleção natural, e
com naturalidade, entre as próprias crianças, até ao passar dos anos em que de
uma forma ou de outra, se esse factor maturacional tiver de facto alguma
preponderância vai sendo dissipado na medida em que o jogador se aproxima do
escalão sénior)
3.
No mesmo estudo, verificámos que mais de 20
jovens jogadores internacionais português nesses mesmos escalões compreendidos
entre os Sub15 e os Sub21 nasceram na Guiné-Bissau. Por outro lado, Castelo
Branco, Guarda e Portalegre, por exemplo, não “oferecem” nenhum jogador ao
estudo. Partindo do pressuposto que não existe falsificação de idades – tão
badalada quando se fala do futebol de formação em África – dos jogadores em
questão, o que poderá ter este contexto de tão especial para ser tão profícuo
na “criação” e desenvolvimento de jogadores talentosos?
GS: Voltamos à questão do
desempenho, ou performance se preferível. Esses jogadores continuam a ter
sucesso quando chegam ao escalão principal do futebol?! Tenho a querer que sim.
Essa é principal questão, a qualidade que o jogador apresenta para vingar em
diferentes contextos. “Nenhum vencedor acredita no acaso.”
Quanto à proveniência dos
jogadores parece-me uma associação que faz todo o sentido. Mas isso é um
fenómeno da sociedade. Cá em Portugal não há uma cultura relativa ao hóquei no
gelo, por exemplo. O mesmo acontece em termos micros com as zonas do país de
onde provêm neste caso os futebolistas. Mas isso não acontece só em Portugal.
Acontece também nos outros países, em alguns de forma mais evidente do que
outros. É uma questão interessante para ser pensada até em várias vertentes,
como também no caso dos clubes que formam mais jogadores a conseguir alcançar
os principais patamares.
Tudo isto para não entrarmos num ramo da ciência que é a
Epigenética, que também nos ajuda a compreender muito daquilo que é a
influência do meio sobre o desenvolvimento de uma pessoa. Somos o que vivemos…
E é natural que determinados meios propiciem influências que mais tarde vão
proporcionar fortes vantagens ao jogador de futebol. Uma vez mais destaco, isto
é como qualquer outra coisa na vida.
4.
Aquando da nossa presença na Academia do
Ajax, foi-nos dito que determinados jogadores eram recrutados não para serem
desenvolvidos mas para potenciar o desenvolvimento de outros jogadores. O
jogador em questão era um sub13 bastante avançado maturacionalmente que com um
perfil morfológico robusto ajudava a criar espaço-tempo para os seus colegas
mais franzinos mas tecnicamente dotados conseguirem jogar mais e melhor…
Estaremos nós a ser justos para com o primeiro e os segundos? Isto é, devemos
nós estar a criar ilusões no grandalhão e facilitar a vida aos segundos?
GS: Esse jogador não pode
vir a ser importante também no futebol profissional?!
Quando constituímos um
plantel partimos de uma ideia, mas toda a ideia necessita de ganhar forma
através dos jogadores, de um contexto… Se para o jogar que se procura fazer
acontecer esse espaço é importante, acredito que vai ser tão importante hoje,
como quando esses jogadores forem profissionais.
O mais importante é perceber
as características dos jogadores e a forma como estes se podem relacionar indo
de encontro a uma ideia (mais) comum.
O exemplo apresentado é
ótimo! Ilusão seria abdicarmos de algo que necessitamos.
5.
Alguns clubes europeus utilizam sistemas de
simplificação no que toca à identificação de jogadores talentosos. O original e
o mais conhecido provém, precisamente do Ajax e chama-se TIPS onde as siglas
são referentes à técnica, ao insight (podendo ser traduzido como inteligência),
à personalidade e à velocidade. Na Premier League alguns clubes utilizam o TABS
(talento, atitude, equilíbrio e velocidade) e o SUPS (skills, interpretação,
personalidade e velocidade). É aceitável definirmos um jogador talentoso
utilizando quatro parâmetros de avaliação? Se tivermos em conta que os domínios
do expertise presentes na literatura são também quatro…
GS: Esses “sistemas”
de…organização, mais do que simplificar permitem-nos organizar entre nós,
profissionais técnicos. Em sociedade temos a necessidade de criar uma linguagem
comum para nos entendermos, seja ela por figuras; verbal… Importa de facto
saber trabalhar em equipa e conseguirmos relacionar informação. Não conseguimos
estar em todo o lado ao mesmo tempo, e como tal não faz sentido cada um
organizar as coisas à sua maneira. Precisamos de nos relacionar. (O futebol até
nisso é um exemplo para a sociedade, enquanto jogo coletivo)
Mas na verdade também temos
de estar despertos para o facto de que criar parâmetros é um caminho para
“empobrecer” a informação. Com a criação de parâmetros aumentamos o risco de
subtrair conteúdo ao potencial que as coisas possam alcançar, até em termos de
descrição. Contudo, se tivermos atentos a este fator é já uma janela importante
para estarmos mais preparados. Por exemplo, até a encontrar algum jogador que
possa não se conseguir descrever (só) nesses critérios.
Em suma, respondendo
concretamente à pergunta, considero que é possível definirmos um jogador
através de parâmetros. O importante é criar um entendimento comum.
6.
Como treinadores, sobre que comportamentos
individuais devemos nós focar o nosso processo de EnsinoAprendizagem para fazer
crescer o jogador? Mesmo que determinado jogador seja bom, podemos sempre
fazê-lo evoluir…
GS: É o contexto que nos dá
as respostas. Tudo isso parte do jogo, ou dos jogos se preferirem. Um jogador
pode numa época estar a sentir determinadas dificuldades, e num outro contexto
apresentar outras que lhe sejam distintas até a esse momento. O crucial é nós
estarmos familiarizados com o maior número de experiências até então, para que
a nossa sensibilidade também seja capaz de poder perceber o que está a
acontecer. Não acredito em checklists que nos permitam validar ou não um
processo de crescimento. Aliado a isto temos de perceber se o jogador tem o
mesmo entendimento que nós. Por vezes, é necessário preparar o jogador para
também se adaptar… “evoluir”. Se o jogador não estiver preparado para receber
informação, então estaríamos a falar de um processo de ensino, sem
aprendizagem. Algo em que não acredito.
7.
Que estratégias no treino deverá utilizar o
treinador para desenvolver determinado jogador com extremo potencial, quando o
contexto em que ele está inserido não é o mais estimulante? Ou seja, por vezes
existem jogadores que parecem estar um “patamar” evolutivo acima dos seus
colegas… E quando isso acontece, não é fácil, no treino, conseguirmos que ele
“cresça”…
GS: Todo o profissional quer
ganhar, tanto o jogador, como o treinador. Quando estamos a ganhar sentimo-nos
mais confiantes e até com mais prazer na forma em como as coisas se
desenvolvem, é natural. Agora, mesmo na vitória é possível continuar a crescer
e a melhorar. Aí entramos na dinâmica da transcendência, ou seja,
ultrapassarmos o patamar do que já é conhecido. Isso parece-me o melhor até.
Fora da dinâmica da vitória
o caminho do crescimento é o de ir encontrando o erro que nos permita resolver
os nossos problemas. Neste caso, mesmos os “melhores” jogadores, dentro do
processo coletivo, têm o seu respetivo enquadramento e responsabilidade. As
coisas não existem de forma separada.
8.
O treino orientado para o desenvolvimento das
capacidades individuais poderá ter um papel importante para a exponenciação do
talento de um jogador? Se sim, quais as orientações pedagógicas/metodológicas
em que se deve basear?
GS: O jogo diz-nos que precisamos do melhor de cada um. E
quando percebemos que isso não se está a consumar temos de perceber com quem e
de que forma. A partir do momento em que compreendemos a situação temos de ter
a capacidade de metodologicamente nos organizarmos e constituir uma resolução
no tempo para com os nossos problemas. O jogar vai estar sempre subordinado
pela perspetiva coletiva, e dentro dessa esfera temos de perceber o timing
certo na preparação para o jogo, por forma a limar as tais arestas individuais.
O treino proporciona-nos momentos para atingirmos o
melhoramento de aspetos micro, isto é individuais.
9.
Nem todas as metodologias de treino são
iguais, é um facto. Contudo, poderemos nós afirmar que existem determinados
princípios metodológicos mais eficazes do que outros no processo de formação de
um jovem jogador? Isto é, poderão os diferentes princípios metodológicos de
treino ser considerados igualmente importantes na exponenciação do talento de
um jogador? Ou deveremos nós optar por focar-nos enquanto treinadores em
determinados princípios?
GS: A resposta à primeira e
segunda pergunta é, claro que sim. A nossa base metodológica é a nossa
conjetura sobre as coisas. Se quisermos, é aquilo que idealizamos para
determinada forma de ser/estar. Esse ideal necessita de referências para que
possamos ter uma lógica. E a lógica é que dá o significado ao contexto.
A lógica cria-se através da
definição de princípios metodológicos, que nos vão permitir sistematizar e
periodizar o nosso trabalho. Para vivermos de forma coletiva precisamos de uma
organização, para que o sucesso possa emergir pelo todo. Agora, para mim essa
organização tem de ser o mais natural possível.
Quanto à última pergunta torna-se vaga porque princípios
podem ir em muitas direções, desde o jogo à minha vida pessoal – que procuro
que não tenha de ser distinta do que é profissionalmente. E princípios não são
leis. Uma vez mais, os princípios é o que define a lógica das coisas, e a
lógica é o que dá significado ao contexto.
10.
Com que idade se deve começar a fazer um
recrutamento de jogadores provenientes de áreas geográficas afastadas?
Utilizando um exemplo concreto, acreditamos que é totalmente diferente para um
clube como o Sporting CP recrutar para o seu plantel Sub11 um jogador da
Amadora ou de Bragança…
GS: Nesse caso temos de
estar atentos a um dado muito importante, o lado pessoal. O qual não pode ser
descurado, nunca. Nada existe de forma independente. Ainda assim não é nenhum
desses fatores que vai orientar o talento do jogador. Se um talento for
detetado, seja com que idade for, o mesmo deve ser assinalado. E só a partir
daí devemos então fazer o enquadramento de tudo o resto. Pois, por muito que às
vezes estejamos desenquadrados com aquilo que possa ser um cenário normal, é
apenas a norma e não a realidade de algo que desconhecemos. Concretizando, e
partindo do exemplo apresentado: como sabemos que o jogador que encontramos em
Bragança não possa estar ou vir a estar ligado a Lisboa, neste caso?! É apenas
um cenário possível. Há que procurar saber…
Refletir sobre cenários
hipotéticos leva-nos a uma grande margem de erro. Devemos procurar concretizar
o mais possível.
11.
Existe a ideia no futebol de que “os melhores
devem estar com os melhores para se desenvolvem melhor”. Por norma, deverá o
jogador de formação optar por jogar nas competições nacionais quando é
convidado?
GS:O melhor é quando nos sentimos bem. “A prática é o
critério da verdade”. O mais importante é o jogador evoluir de forma consistente
até alcançar o patamar profissional, e que um dia lhe permita ter a sorte de
fazer daquilo que gosta uma profissão. Agora se o jogador se sente bem com
desafios maiores, e que também sejam melhores, parece-me algo apenas com
fatores positivos. Mas cada caso é um caso…
Com esta “conversa” ficámos a conhecer melhor as ideias
do Gil e sobre a sua visão orientada para “ecologização” da problemática que é
a identificação e o desenvolvimento do talento desportivo.
A ideia que mais retemos e partilhamos é mesmo a da
necessidade de termos de saber contextualizar e relativizar as questões do
treino e do recrutamento, olhando para ambas como questões específicas e
complexas, fugindo das muitas leis “absolutistas” que muitas vezes assolam os
pensadores do Futebol…
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