Quando se procuram encontrar formas
de melhorar o futebol de formação a longo prazo, a questão dos “Quadros
Competitivos” vem sempre à baila.
Em Portugal essa problemática está
sempre presente nos grandes fóruns de discussão do futebol, sendo particularmente
importante para os ditos “clubes grandes” que muitas vezes se mostram
insatisfeitos com esses mesmos Quadros Competitivos. A quantidade de jogos
realizados, a estruturação regional, o número de divisões existentes, a
existência ou não de play-offs, até a própria estruturação dos escalões
etários, são temas muito discutidos dentro e fora da Federação Portuguesa de
Futebol.
Esta questão da Idade Relativa, e
do seu Efeito no desenvolvimento da criança não é nova nem específica do
futebol. Muita investigação que tem sido feita tem-nos dito que as
crianças/jovens que nasçam perto do início do corte de escalão têm alcançado
desempenhos qualitativos mais elevados em áreas como a educação e o desporto.
Se nos reportarmos ao Futebol português, onde o início de um escalão etário tem
lugar no dia 1 de Janeiro indo até ao 31 de Dezembro do mesmo ano, a literatura
indica-nos que quem nasce no primeiro quartil (Janeiro, Fevereiro, Março) é
mais vezes escolhido e considerado como talentoso, do que quem nasça nos
últimos meses do ano (Outubro, Novembro e Dezembro).
Na nossa tese de mestrado,
abordámos precisamente esta temática, concluindo que cerca de 44% dos
internacionais portugueses das diferentes selecções jovens nacionais entre 2012
e 2014 nasceram no primeiro quartil do ano. Tal como a nossa investigação,
também nas academias da Premier League se registam 45% de jogadores nascidos no
primeiro quartil do ano desportivo (no caso inglês o início do corte
verifica-se a 1 de Setembro).
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Na tentativa de homogeneizar a
vertente competitiva segundo a dimensão física, a Premier League aplicou para
este torneio piloto o método não-invasivo de Khamis-Roche. Este método
matemático ajuda a determinar o “tamanho” relativo das crianças, segundo
variáveis como a altura e o peso da criança e a média de alturas dos pais, contribuindo
para que se faça uma nivelação competitiva segundo os seus resultados.
As conclusões tiradas deste torneio
foram que os jogadores com uma maturação mais precoce que jogaram entre si,
tiveram de se esforçar mais do que em jogos anteriores, enquanto que os
jogadores com uma maturação mais tardia, sentiram que puderam disfrutar mais do
jogo, usando com mais frequência os seus skills técnicos.
Contudo, e embora pareça que este
torneio tenha criado contextos competitivos mais estimulantes que os habituais
contextos utilizados, a Premier League acredita que este tipo de competições
deva ser utilizado esporadicamente. A equipa de James Bruce, coordenador da
área dos estudos das Ciências do Desporto da Premier League, e de Dan Hunt,
coordenador da área da performance de elite, considera que os contextos
competitivos devem ser o mais diferenciados possíveis. Eles propõe que a
categorização deva ser feita em função da idade cronológica, da idade relativa,
com jogadores mais velhos, e com jogadores mais novos. Com esta diferenciação
regulamentar, o principal objectivo é que “se expanda o espectro de
recrutamento e de retenção de jogadores, criando oportunidades de estender e
consolidar o desenvolvimento de jogadores, permitindo que as proezas técnicas
venham à tona.”
A nossa principal questão vai precisamente
nesse encontro. Não adianta muito a muitos agentes desportivos que se criem
determinados regulamentos mais justos, se o maior propósito continua a ser
ganhar. Ao invés de ser o de ensinar e desenvolver o jogo e o jogador. O
treinador de formação que procure sobretudo o “fim” (leia-se resultado)
renegando o “meio” (leia-se o jogar) continuará sempre à procura de colocar em
campo os jogadores que lhe permitam ganhar e não, propriamente, aqueles que se
precisem de desenvolver. O mesmo acontece muitas vezes aos “olheiros” que ficam
“cegos” com o talento virtual de alguns jogadores, sobrevalorizando a
sub-dimensão física do jogador.
Mais do que mudar regulamentos,
cabe-nos a nós treinadores, scouts, coordenadores, mudarmos o paradigma de entendimento
sobre o que é o futebol de FORMAÇÃO e o que é que é realmente um Jogador
Talentoso…
Em jeito de conclusão, “entendemos deste modo, que o Talento não
se avalia nem a quilo nem a metro, nem tão puco através do bilhete de
identidade…” (Pacheco, 2001; Maciel, 2008).
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