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Gestor
da plataforma internacional informativa sobre “O Mundo dos Guarda-Redes” e comunicador de formação, aquele que começou por ser um jovem
blogger é já uma autêntica enciclopédia sobre tudo o que diz respeito aos
números 1. E não só no futebol.
1. Comecemos por uma das mais difíceis perguntas que se
impõem no que à formação de guarda-redes diz respeito. Como se poderá dizer a
um guarda-redes que é baixo que (muito) dificilmente ele terá sucesso enquanto
profissional?
R.R.) É um de tantos estereótipos que a sociedade criou à
volta do guarda-redes. É claro que é precisa uma certa altura para defender o
gigante que fica atrás do guarda-redes, mas para todo o tipo de guarda-redes e
humano à especificidades físicas que condicionam ou abonam a favor da posição.
Um guarda-redes de 1,85m pode não ter a capacidade de impulsão de um de 1,80m –
que já é considerado “baixo” -, ou vice-versa. Penso que não deve haver esse
tipo de preconceito.
2. Passando para o lado do treino, abordamos uma enorme
dificuldade que condicionam o desenvolvimento dos guarda-redes em muitos dos
clubes amadores. Quando até para a equipa principal é difícil arranjar-se um
treinador, como se pode ensinar/treinar um guarda-redes quando se está sozinho
nesse processo? Que estratégias deveremos elaborar no treino, nós treinadores, para
pudermos potenciá-los?
R.R.) Primeiro de tudo o treinador tem de ter sensibilidade
para compreender e abordar o guarda-redes. É uma posição específica e a pessoa
que defende a baliza é ainda mais especial por todos os motivos: desde a
especificidade do treino individual até à abordagem global na conjuntura da
equipa. Os treinadores devem criar espaço no plano de treinos e na aprendizagem
individual para dedicar algo aos guarda-redes, no caso da ausência do técnico
específico ou da impossibilidade de contratar um. Quem sabe, chegar mais cedo
ao treino e dispensar dez minutos com os guarda-redes, por exemplo.
3. Muitas das equipas amadoras da região tem uma lacuna
quantitativa de guarda-redes. Mesmo ao nível sénior. É mais habitual existir
apenas um do que três guarda-redes. Contudo quando isso acontece nem sempre é
fácil “encaixar” o terceiro guarda-redes. Que papel deverá adoptar esse jogador
quando ambas as equipas já têm um guarda-redes? Deverá ser inserido no jogo
como jogador de campo, deverá ser convidado a esperar fora do exercício, deverá
ter um papel rotativo com outro guarda-redes… convém não se esquecer que o treinador
de guarda-redes é um indivíduo quase inexistente na nossa região...
R.R.) No treino deve-se gerir as cargas físicas e a partir
daí tentar estabelecer um sistema de rotatividade entre os três guardiões. Se
no treino de sexta-feira o titular de domingo já tiver a carga de treino
suficiente, pode-se gerir melhor a questão dos três guarda-redes. E há também a
questão de um guardião beneficiar mais da integração no jogo e circulação da
bola com os pés.
4. Num processo a dois treinos semanais – número normal na
nossa região mesmo em equipas a competir em campeonatos nacionais – sem
treinador de guarda-redes, qual a importância de realizarmos um treino
complementar para desenvolver os skills específicos dessa posição?
R.R.) Como disse anteriormente, criando um espaço só para os
guarda-redes antes do treino. Ou, então, consciencializando o guarda-redes da
importância do conhecimento autónomo sobre a posição e o treino, o que por
vezes ajuda-os a crescer e a desenvolver com maior prosperidade. É essencial
também ter atenção ao tipo de exercício coletivo em que o guarda-redes é
inserido, pois por vezes vemos o guarda-redes a fazer exercícios de carga
física no treino prévio ao jogo e este pouco abona com isso.
5. E das outras como defesa-central ou avançado?
R.R.) Recordo uma entrevista do ex-avançado Jorge Cadete em
que falava da necessidade de se criar meios para a existência do treinador de
avançados e olhamos para equipas de menor nomeada no Brasil e vemos um staff
com quase dez elementos, começando no treinador principal até ao psicólogo.
Penso que um dia teremos a abertura e as capacidades para a criação de técnicos
específicos capazes de rentabilizar jogadores por posição, porque por vezes o
treinador principal e o adjunto não têm tempo, disponibilidade ou alcance para
isso. Olhando para o Futebol Português imagino o que seria de Hélder Guedes ou
de Yazalde se tivessem um acompanhamento mais íntimo de um técnico e veríamos a
diferença de aproveitamento por oportunidades de golo que teriam com esse tipo
de trabalho.
6. Existe a esperança que o “Projecto 1” dinamizado por
Vítor Baía seja um importante contributo para a nossa “Escola de Guarda-Redes”
em Portugal. Será que esse projecto está no caminho certo?
R.R.) A ideia, de partida, já movimentou muito interesse
para a posição e só isso já é positivo. A atenção que a sociedade e os Media
davam aos guarda-redes há três/quatro anos atrás é completamente diferente da
que dão hoje e o Projeto 1 – Escola de Guarda-Redes da Federação Portuguesa de
Futebol vem nesse seguimento. A partir daí depende muito da concretização do
que é idealizado e da qualidade da mão-de-obra impregnada no projeto. Até agora
já se cumpriu alguns dos pontos idealizados, mas ainda há muito a trabalhar e a
acrescentar.
7. Quando se fala de “Escolas de Guarda-Redes”, como se pode
caracterizar a Portuguesa?
R.R.) Por potenciação, por rendimento. São inúmeros os casos
de guarda-redes que chegam a Portugal com poucas condições e falta de bases
técnicas e competitivas e saem do nosso país na plenitude das suas capacidades.
Uma vez no estrangeiro, voltam ao ponto em que chegaram cá. E nisso é que o
treinador de guarda-redes Português se distingue: em detetar os erros e as
lacunas e corrigir ou até “esconde-las.” Penso que Portugal está bem sem
qualquer formato ou padrão de guarda-redes ou de treino de guarda-redes, mas
beneficiaria de uma creditação e formação para treinadores de guarda-redes.
8. Se conseguíssemos identificar um padrão, quais os pontos
fracos dos guarda-redes portugueses para voltarmos a ver a principal liga
portuguesa com mais guarda-redes nacionais?
R.R.) O ponto mais fraco dos guarda-redes Portugueses deverá
encontrar-se prioritariamente fora de campo. Há muito talento nas balizas de
Portugal, mas há vários interesses que impedem o surgimento de jovens talentos.
É de se questionar como guarda-redes como Mário Felgueiras ou Beto Pimparel não
tiveram a solidez que lhes devia ser dada em Portugal e quem acaba prejudicado
é o próprio Futebol nacional.
Depois, há a questão da pouca formação que é dada ao
treinador de guarda-redes Português e isso afeta os guardiões desde a formação
ao seniores. Vemos vários jovens chegarem aos escalões principais com passagens
nas seleções jovens e depois acabam por não singrar e isso deve-se também, mas
não só, à pouca preparação para a competição e situações reais de jogo.
9. Passando agora para uma análise internacional do momento
dos guarda-redes, podemos dizer que com a sua visão diferente do Jogo,
Guardiola tem também uma visão diferente para os guarda-redes. Com essa
atribuição de novos papéis e tarefas estaremos nós perante uma nova etapa
evolutiva para os “redes”?
R.R.) As ideias e conceções de Pep Guardiola revolucionaram
a maneira como o guarda-redes é visto e renovou o interesse dado à posição. O
que o público-geral e os executantes do Futebol precisam de entender é que a
principal do guarda-redes é a defesa da baliza. Só depois se pode pensar no
resto. Johan Cruyff tomou riscos ao apostar em Stanley Menzo pelas suas
valências no jogo com os pés na década de 80, mas volvidas duas décadas o mesmo
não se passou no FC Barcelona: Víctor Valdés era um guarda-redes capaz na
defesa da baliza e na construção de jogo e circulação de bola. Os seus erros
eram mais decisionais do que técnico-táticos. Quando Guardiola chegou ao FC
Bayern implementou as suas ideias em Manuel Neuer e vimos a evolução dessa
etapa “finalizada”, mas penso que mais do que admirar e apreciar este tipo de
jogo do guarda-redes há que entender que a sua função é defender e só é
possível conseguir ser um Manuel Neuer se tiver um bloco e uma equipa coesa que
possibilite tamanhos riscos e decisões.
10. Guardiões como Gianluigi Donnarumma e Alban Lafont
poderão contrariar a ideia de que os guarda-redes precisam de muita experiência
para serem Top. Poderão eles abrir novas portas a outros jovens guarda-redes
que precisem agora de menos anos de futebol para se afirmar?
R.R.) A experiência não se traduz nos anos vividos, mas sim
na aprendizagem dos momentos vividos. Olhando para Gianluigi Donnarumma vemos
um guarda-redes muito jovem mas que passa bastante tranquilidade à equipa. Não
é um guarda-redes que arrisca nem se coloca em situações de perigo. Cumpre e sabe
passar calma à equipa e beneficiou do caos do AC Milan para rentabilizar a sua
imagem e a sua potencialidade. Teve a inteligência emocional para transformar
uma situação de grande perigo num benefício para o seu crescimento individual.
Quando dizem que para se ser guarda-redes tem de se ser
“louco” ou “maluco” estão completamente errados. É aceder a um estereótipo que
tem de cair. A posição de guarda-redes é a que exige mais equilíbrio
psicológico e emocional, aliando níveis altos de inteligência para poder
decidir. Portanto, penso que a aposta em jovens guarda-redes deve passar por a
pesagem destas condições, aliadas à qualidade técnica, e só por isso não vemos
mais jovens guarda-redes a surgir.
No caso específico de Alban Lafont, vemos um guarda-redes
com graves lacunas técnico-táticas, mas que consegue desempenhar um papel de
normal exigência para uma equipa como o Toulouse FC e que cumpre dentro do que
lhe é pedido: defesa da baliza. Bem à imagem dos restantes guardiões do
campeonato Francês.
11. Sem queremos ter uma postura extremista em prol dos
jovens guarda-redes, continuamos a reconhecer qualidade em Gianluigi Buffon e
Tim Howard (porque não Hélton?) que provam que com mais de 37 anos ainda se
joga a top, mesmo numa posição que exige uma condição física mais
traumática…
R.R.) O segredo passará pela auto-motivação e pela
capacidade das pessoas que os rodeiam. Não há idade para a qualidade de um
guarda-redes. Vemos como Júlio César evoluiu nos últimos anos em Portugal e
pensamos: como será possível um guarda-redes já consagrado desenvolver-se
assim, “ainda” com esta idade? A resposta está dentro do seu intelecto. Da
plasticidade e das suas qualidades cognitivas.
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