Quisemos
saber mais sobre a história desportiva dos 23 escolhidos de Fernando Santos.
Fomos tentar conhecer de onde vieram e por onde passaram os jogadores que
representam a selecção nacional portuguesa, desde o seu primeiro ano de
competição formal até ao final (?) do seu processo de formação - o último ano
de juniores.
Desde
logo é importante referir que dos 23 jogadores convocados, 8 nasceram fora de
Portugal e que por isso, poderão ter tido o seu primeiro contacto com o Jogo,
ainda em solo estrangeiro.
Para
além dos casos de Anthony Lopes e de Raphael Guerreiro que nunca representaram
qualquer clube português, todos os dados dos outros jogadores foram recolhidos
no portal da Federação Portuguesa de Futebol.
Para
estes dois jogadores acima destacados conseguimos apurar (wikipedia.com e
transfermarkt.com) que Anthony Lopes é um “produto” da academia do Lyon,
encontrando-se o guarda-redes no clube desde os Sub9; enquanto que Raphael
Guerreiro tem um historial mais diversificado, tendo representado até aos Sub19:
o Blanc-Mesnil SF (1999-2005), o INF
Clairefontaine (2005–2008) e o SM Caen (2008–2013).
Também
Pepe fez grande parte da sua carreira jovem fora de Portugal, no Brasil, ao
serviço do Corinthians Alagoano, chegando a terras lusas e ao Marítimo apenas na
sua época de Sub19.
A
pesquisa efectuada está então representada no seguinte quadro:
Antes
de prosseguirmos a reflectir sobre o que o quadro nos mostra, importa
clarificar que outro luso-francês, neste caso o Adrien Silva, começou a sua
formação aos 5 anos na “escolinha” do FC Girondins de Bordeuax onde esteve até
vir para Portugal e para o ARC Paçô.
Já
no caso dos outros jogadores que nasceram fora de Portugal, a competição formal
poderá ter nascido no nosso país. Também filho de emigrantes, Cédric Soares tem
uma história desportiva mais linear, já que a sua família voltou para Portugal
quando ele apenas tinha dois anos, não havendo, obviamente registos antes do
seu ingresso no Sporting.
Passando agora para os luso-africanos, as primeiras
vivências futebolísticas deles parecem ser bastante semelhantes. William
Carvalho (Angola), Éder e Danilo Pereira (Guiné-Bissau) vieram para Portugal
ainda em criança tendo começado a jogar em clubes de menor dimensão ainda em
tenra idade – no caso de Éder foi um pouco mais tarde.
Focando
a nossa análise nos 20 que passaram maior parte da formação em Portugal
começamos por dissecar aquilo que foram os seus primeiros contactos com o
processo de formação formal, nomeadamente à “Idade de Ouro da Aprendizagem” –
6-12 anos propostos por Pacheco (2001) – ou seja, até ao escalão Sub13.
Iniciamos
a nossa análise pelo princípio, isto é, pelo seu “birthplace futebolístico” –
aqui entendido onde os jogadores passaram maior parte da sua iniciação
futebolística – verificamos que quase metade dos jogadores iniciou a sua
prática em clubes da AF Lisboa. Os valores aumentam quando ainda falamos dos
Sub13 quando já mais de metade está a jogar nos campeonatos regionais da
capital portuguesa.
É
também importante destacar que alguns dos jogadores apenas começaram a competir
formalmente no escalão de infantis. Contudo, acreditamos que não tenham
começado a jogar futebol apenas nesta idade, mas que tivessem iniciado e
desenvolvido a sua prática noutro contexto competitivo que não o do clube, ou
seja, na rua.
Outra
constatação é que nestas idades, em especial até ao escalão de Sub11, os clubes de referência
de formação em Portugal – leia-se 3 grandes – ainda não têm uma grande
representatividade. Até aos Sub11, apenas o FC Porto, consegue repetir dois
jogadores (curiosamente, ambos acabam a formação nos clubes rivais – Benfica
(André Gomes) e Sporting (João Mário)).
Já
quando “subimos” para os Sub13,
já todos os jogadores estão a competir em determinada equipa. É neste escalão
que existe uma maior diversidade de clubes e proveniências, de Trás-os-Montes
ao Algarve, passando pelas ilhas, os cracks vêm de todo o lado, por mais
estranho que possa parecer numa perspectiva cada vez mais centralizada.
Neste
capítulo importa aqui destacar o Sporting CP. Ao observarmos o quadro,
verificamos que são 15 os clubes que estão representados neste escalão etário
mas apenas o Sporting consegue “ter” mais do que um jogador. E logo seis! Ainda
nesta referência, é pertinente vermos que estes seis jogadores desempenham
diferentes posições no campo, contrariando a ideia muitas vezes em voga de que
o Sporting CP apenas forma “extremos”: guarda-redes (Rui Patrício), defesas
(Cédric e José Fonte), médio (João Mário), avançados (Cristiano Ronaldo e
Ricardo Quaresma).
A
partir do escalão Sub14 começa
a diminuir a diversidade de clubes representados no quadro. A partir do escalão
de iniciados os jogadores começam progressivamente a concentrar-se em
determinadas equipas, com enfâse especiais nos três grandes. Com estes dados,
podemos inferir que os jogadores de top nacional começam a ser recrutados a
partir deste escalão, indo de encontro a alguns estudos que definem este grupo
etário como o ideal para começar a recrutar.
Avançando
para o último ano de júnior, o escalão
Sub19, a diversidade de clubes é a mais reduzida. Para além dos “três
grandes”, apenas Belenenses, SC Braga, Feirense e Adémia viram jogadores seus
estarem presentes no Euro’2016. De todos, não podíamos deixar escapar o jogador
que ainda com 19 anos representava o “ilustre desconhecido” ADC Adémia e hoje
leva já 28 internacionalizações. Falamos de Éder, jogador mais contestado de
todas as escolhas de Fernando Santos mas que é também aquele que tem a “escola”
(teoricamente) mais fraca. Embora acreditemos que o jogador poderá apresentar
algumas limitações no seu jogar, não deixa de ser também criticável que tantos
clubes de referência a nível da formação continuem sem conseguir desenvolver
talentos para a frente de ataque portuguesa. Se os “falhanços táctico-técnicos”
de Éder são condenáveis, porque não condenar também os “falhanços de formação”
dos melhores clubes portugueses, no que a esta posição diz respeito?
Ainda
sobre este escalão, mais uma nota de destaque para o Sporting CP. São dez os
jogadores que nos Sub19 jogavam (alguns ainda jogam) no Sporting. Como se não
bastasse, das 183 épocas que os jogadores passaram no seu período competitivo
formativo, mais de um terço foi com o lema dos “leões” ao peito. Compreende-se
assim o porquê do Sporting ser considerada (e os dados do quadro comprovam
isso) uma das melhores escolas de formação do Mundo…