Na
nossa pesquisa diária pelo Saber, deparámo-nos com um artigo não-científico que
aborda a regra dos “21 Dias” para se adquirir um novo hábito.
Sendo
o Jogo de Futebol um jogo de hábitos, foi óbvio o nosso interesse por esse texto.
Após outras pesquisas sobre o tema, a questão temporal passou a ser mais dúbia.
Não há um verdadeiro valor sobre quantos dias são necessários para se criar ou
reprogramar um hábito estando esse número dependente da complexidade do mesmo
hábito.
Começando
pelo início, desde logo ficámos desiludidos connosco. O primeiro grande livro
sobre o tema reporta-se aos anos 60, escrito pelo cirurgião plástico Maxwell
Maltz, e nós, só agora tivemos conhecimento sobre o “Psycho-Cybernetics” –
assim se chama o livro.
Na
altura, e com base em informação empírica dos seus pacientes e dele próprio,
Maltz referiu que “eram necessários no mínimo 21 dias para que uma antiga
imagem mental se dissipe e uma nova suceda”. Contudo, muitos se aproveitaram e
continuam a aproveitar desta referência subjectiva para criar o “Mito dos 21
Dias”.
Tal
como tudo na vida, a programação ou reprogramação de hábitos não segue uma
lógica linear. Sabe-se sim, que um comportamento necessita de ser repetido com
frequência e regularidade para que seja considerado um hábito.
Passando
agora para o Futebol, mais propriamente para o espaço temporal que
convencionalmente se apelida de pré-época, questionamos o seguinte: como será
possível criarem-se hábitos colectivos, se os comportamentos que os sustentam
não são treinados de forma sistemática?
Neste
período que já começou ou em breve começará para grande parte dos clubes, como conseguirão
eles criar hábitos do Jogo, se o seu treino passa por fazer exercícios na praia
ou nas matas?
Não
queremos aqui abominar essas metodologias de treino. Mas, se por norma, as
pré-épocas não têm mais de 21 dias – mesmo colocando a
programação/reprogramação de hábitos neste número mítico, que hábitos
colectivos apresentarão os jogadores no seu primeiro jogo da época?
Pegamos
no exemplo do Vítor Pereira. No I Congresso Internacional de Periodização
Táctica, Vitor Pereira afirmou que não teve tempo para preparar a sua equipa
como queria, daí ter tido bastantes dificuldades nos resultados, acabando por
descer de divisão. O treinador português ex-TSV 1860 Munique afirmou que os
hábitos estabelecidos intrinsecamente em grande parte dos seus jogadores não
lhe permitiram ter um modelo de jogo congruente entre as suas ideias e os hábitos
anteriores dos seus pupilos. Recorde-se que Vítor Pereira esteve 5 meses ao
comando desta equipa, muito mais do que os tais 21 dias.
Colocando
de parte a falta de flexibilidade de Vítor Pereira para se ajustar ao grupo de
jogadores do seu clube, verificamos que o Futebol, em especial o que pretender
desenvolver-se através de dinâmicas mais complexas e interactivas, necessita de
tempo! Tempo esse que será mais ou menos prolongado em função do hábito que se
quer adquirir ou reprogramar e em função do indivíduo que terá de conceber ou
reformular o hábito pretendido pelo seu treinador.
Daí
a beleza e riqueza que poderá sair do Processo (e não eventos) de Treino –
aberto, não-linear – na criação dos mais belos e criativos hábitos de Jogo.